Arbitragem em conflitos de autoria
Dezembro de 2018 | Pesquisa FAPESP

Em artigo publicado na revista Research Integrity and Peer Review, o biólogo canadense Zen Faulkes propôs uma nova maneira de enfrentar disputas envolvendo a autoria de artigos científicos: a criação de órgãos independentes de arbitragem ou mediação para resolver os conflitos. Segundo ele, tais desavenças consomem um tempo precioso de editores de periódicos e eles nem sempre estão aptos a gerenciar controvérsias sobre o real tamanho da contribuição de um postulante a autor. Faulkes lembra que o Committee on Publication Ethics (Cope), fórum de editores de revistas científicas sediado no Reino Unido, estabeleceu condições e diretrizes para adicionar nomes de autores a artigos já publicados, mas observa que os editores se sentem constrangidos quando o autor correspondente, aquele responsável pela submissão do artigo, discorda da mudança.

Órgãos ou agências independentes, trabalhando em modelos similares aos comitês de ética organizados para avaliar casos de má conduta, poderiam dar respostas rápidas e efetivas. No modelo proposto por Faulkes, essas organizações deveriam ser formadas por indivíduos com diferentes experiências, como comunicação científica, investigação de má conduta e resolução de conflitos, e poderiam prestar serviços a diversos periódicos ao mesmo tempo, sempre a convite de seus editores. Como a autoridade sobre esse tipo de decisão pertence aos periódicos, o resultado da mediação ou da arbitragem seria encaminhado às revistas na forma de uma recomendação, cabendo a eles referendá-la.

“As discussões sobre conflitos de autoria frequentemente focalizam a prevenção e raramente tratam de como resolvê-los”, escreveu o biólogo, que é pesquisador da Universidade do Texas em Rio Grande Valley, nos Estados Unidos. Segundo ele, quando uma disputa eclode após a publicação de um paper, a praxe é sugerir aos litigantes que tentem resolver entre si. “Mas é pouco provável que isso aconteça, porque geralmente há desnível de poder entre os membros do time que assinou o artigo. E universidades e agências de fomento raramente têm autoridade sobre todos eles simultaneamente.” Também é incomum, de acordo com Faulkes, que a briga vá parar na Justiça, pelo desgaste e custo envolvidos em processos.

A arbitragem, ele observa, tem se mostrado eficiente para resolver conflitos de autoria na indústria do cinema, em que o reconhecimento da contribuição envolve prestígio e dinheiro.“O crédito de roteiros de filmes pode ser definido por arbitragem e normalmente o árbitro final é uma associação chamada Writers Guild of America. Ela tem regras para determinar quem recebe o crédito, embora haja margem para interpretações, como o que é uma ‘contribuição substancial’”, explicou Faulkes em seu blog na internet.

 

Fonte: Pesquisa FAPESP

CNRS cria escritório de integridade científica
Dezembro de 2018 | Pesquisa FAPESP

O Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França, vai montar um escritório para investigar casos de suspeita de má conduta, que será chefiado pelo físico teórico Rémy Mosseri. O CNRS é a maior instituição de pesquisa básica da Europa. Com um orçamento anual de € 3,3 bilhões (o equivalente a R$ 14,5 bilhões), congrega mais de mil laboratórios e emprega cerca de 15 mil pesquisadores, 14 mil engenheiros e 4 mil técnicos. O escritório de integridade científica terá um staff de cinco funcionários e responderá diretamente ao presidente da organização, cargo hoje ocupado pelo matemático Antoine Petit.

A decisão de criar uma instância permanente de investigação coincidiu com um recuo do CNRS em um caso de má conduta. Em 2015, o comitê disciplinar da instituição responsabilizou o biólogo Olivier Voinnet por manipulação de imagens em quatro artigos científicos e o suspendeu de seus quadros por dois anos. Agora, o caso foi reavaliado e se concluiu que Voinnet, embora fosse líder do grupo de pesquisa, não participou nem teve conhecimento da manipulação. A criação do escritório do CNRS também reflete a preocupação crescente com a má conduta científica no país. Em 2017, foi fundado o Escritório Francês de Integridade Científica, um órgão nacional para promover boas práticas em universidades e instituições de pesquisa. 

Fonte: Pesquisa FAPESP

O hábito de cometer fraudes
Outubro de 2018 | Pesquisa FAPESP

O Japão se destacou em um ranking de má conduta científica – o dos 10 pesquisadores do mundo com maior número de artigos retratados – no qual detém a metade dos casos. Segundo um levantamento feito pelo site Retraction Watch, o primeiro nome dessa lista é o do anestesiologista Yoshitaka Fujii, pesquisador da Universidade Toho. Ele alcançou o recorde de 183 artigos retratados, depois de uma investigação, concluída em 2012, constatar que ele publicou papers com dados fabricados ao longo de quase duas décadas. O também anestesiologista Yuhji Saitoh, do Hospital Geral Kureha, em Fukushima, coautor de vários artigos com Fujii, aparece em 8º lugar no ranking, com 39 retratações, empatado com o endocrinologista Shigeaki Kato, pesquisador da Universidade de Tóquio até 2012, cujos papers tinham diversas imagens manipuladas – quando começou a ser investigado, Kato ordenou que seus assistentes apagassem provas de seus computadores.

Um escândalo recente colocou no ranking mais dois pesquisadores nipônicos: Yoshihiro Sato, com 43 retratações, e Jun Iwamoto, com 39. Sato, um neurologista do Hospital Mitate, da cidadezinha de Tagawa, adulterou 33 ensaios clínicos ao longo de 15 anos, na maioria sobre tratamentos capazes de prevenir fraturas ósseas em idosos e em pacientes com mal de Parkinson. Havia tempo que ele despertava suspeitas em colegas de outros países por descrever em seus artigos resultados muito eloquentes sobre a eficácia de vitaminas e pela rapidez com que arregimentava voluntários para suas pesquisas clínicas – em um dos casos, conseguiu reunir mais de 500 pacientes em um vilarejo em apenas dois meses.

Evidências inequívocas contra o pesquisador foram encontradas por um grupo de médicos e estatísticos da Escócia e da Nova Zelândia. Eles demonstraram que as características dos grupos de pacientes de diferentes ensaios feitos por Sato eram muito parecidas – o que seria impossível de acontecer acidentalmente –, encontraram várias incongruências estatísticas e constataram que os resultados eram muito mais expressivos que os observados em outros testes clínicos com as mesmas terapias. “O grupo de Sato era extraordinariamente produtivo e se notabilizava por chegar a conclusões notavelmente positivas”, disse o médico Mark Bolland, pesquisador da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, ao publicar as conclusões sobre o caráter fraudulento das pesquisas do japonês na revista Neurology em dezembro de 2016.

O periódico, editado pela Academia Americana de Neurologia, retratou três artigos de Sato. Entre os prejuízos causados pela falsificação, Bolland enumerou o desperdício de recursos em novos ensaios para tentar reproduzir os achados do neurologista e a crença exagerada no poder de vitaminas para combater a osteoporose – as diretrizes de prevenção da doença no Japão, por exemplo, foram influenciadas por Sato.

Fonte: Pesquisa FAPESP

Publique ou pereça
Outubro de 2018 | Pesquisa FAPESP

A revista científica de acesso aberto Nutrients perdeu todos os seus 10 editores seniores, que renunciaram aos postos em protesto contra a pressão para publicar artigos que consideravam de baixa qualidade. O periódico foi criado em 2009 pela Multidisciplinary Digital Publishing Institute (MDPI), empresa baseada na Suíça com um portfólio de 237 publicações técnicas e científicas. A renúncia coletiva resultou de um conflito entre a empresa e o editor-chefe da Nutrients, Jonathan Buckley, pesquisador em nutrição e fisiologia do exercício da Universidade do Sul da Austrália, em Adelaide. Em agosto, ele recebeu um e-mail da MDPI comunicando sua substituição no comando da revista a partir de 2019 por alguém que trouxesse “ideias novas” para a publicação. Para Buckley, que renunciou prontamente, o episódio foi o ponto final de um desentendimento acerca de uma política rigorosa para aceitar artigos: sob sua gestão, a taxa de rejeição de manuscritos submetidos à revista subiu de 55% para 70%, o que ajudou a elevar seu fator de impacto, inferior a 1 em 2011, para os atuais 4,7.

O presidente da MDPI, Franck Vasquez, classificou a estratégia de Buckley como “artificial” e exageradamente centrada no aumento do fator de impacto. “Quando um artigo é robusto e útil para pesquisadores, ele deve ser publicado, mesmo que os resultados não tragam uma novidade”, disse à revista Science. A estratégia restritiva de Buckley, embora renda prestígio para a publicação, não colabora com o desempenho financeiro da empresa. Os autores de cada artigo selecionado pagam uma taxa de US$ 1,8 mil à MDPI – quanto mais papers publicados, maior o faturamento. Lynda Williams, pesquisadora da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, e uma das editoras que renunciou, diz que a empresa tem uma visão equivocada, capaz de comprometer o esforço para dar prestígio à publicação e atrair bons artigos científicos. Vasquez rejeita essa avaliação e diz que outras publicações da MDPI conseguiram ampliar o fator de impacto aumentando o número de artigos.

Em 2014, as revistas da MDPI chegaram a ser incluídas em uma relação de publicações predatórias, aquelas que publicam papers sem qualidade, cobrando por isso. Mas a empresa apelou ao responsável pelo índice, o bibliotecário Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado, e deixou de figurar na lista no ano seguinte. O mercado das publicações comerciais de acesso aberto tem perspectivas de expansão. No mês passado, 11 países europeus anunciaram que, a partir de 2020, só apoiarão projetos de pesquisadores que aceitarem divulgar seus trabalhos em revistas de acesso aberto. A iniciativa foi coordenada pela Science Europe, composta por instituições de fomento como a Agência Nacional de Pesquisa da França (ANR) e a recém-criada UK Research and Innovation, do Reino Unido. Segundo o grupo, não será mais admitida sequer a publicação de artigos em revistas híbridas, aquelas que vivem de assinaturas mas cobram uma taxa extra para que artigos sejam prontamente disponibilizados na web.

Fonte: Pesquisa FAPESP

Quatro tons de plágio acadêmico
Setembro de 2018 | Pesquisa FAPESP

Índia lança diretrizes para punir apropriação de ideias em trabalhos científicos e propõe uma escala para avaliar a gravidade do problema. 

University Grants Comission (UCG), órgão do governo da Índia que regulamenta e coordena o funcionamento de 867 universidades do país, lançou um conjunto de diretrizes para identificar e punir casos de plágio envolvendo artigos científicos, livros, monografias e teses. Entre as novas regras, que entraram em vigor no final de julho, tornou-se obrigatório para professores o uso de softwares de detecção de plágio em textos acadêmicos de seus alunos. As instituições também serão responsáveis por treinar estudantes, docentes e membros de seu corpo técnico para que possam utilizar essas ferramentas. Orientadores e supervisores deverão certificar que os trabalhos de seus alunos foram verificados por esse tipo de software e estão isentos de suspeitas. Nas universidades, cada departamento terá de criar um painel para investigar acusações de plágio. Caberá a uma instância ligada a cada reitoria a análise de recursos contra a decisão dos painéis.

O plágio acadêmico é definido nas diretrizes da UCG como “tomar o trabalho ou a ideia de outra pessoa e apresentá-lo como sendo seu”. O órgão, no entanto, considerou que o problema pode ser matizado em quatro diferentes níveis – quanto mais extenso o plágio, mais severas devem ser as punições (ver quadro). O nível zero é aquele que em menos de 10% do conteúdo de um trabalho tem similaridades com outros textos que não foram admitidas pelo autor – até esse limite, não há penalidades previstas. Já quando a semelhança atinge mais de 60% de um trabalho acadêmico, as punições podem chegar ao cancelamento da matrícula do estudante plagiador ou, se o acusado for um docente ou um pesquisador, a proibição de orientar ou supervisionar alunos por três anos. Infratores contumazes serão alvo de processos disciplinares e poderão ser demitidos.

“A regulação é um passo necessário na direção certa”, disse à revista Science Virander Chauhan, chefe do Conselho Nacional de Avaliação e Acreditação, um braço da UGC. A comunidade científica indiana, no entanto, reagiu às diretrizes com críticas e ceticismo. O físico nuclear Valangiman Subramanian Ramamurthy, que dirigiu o Instituto Nacional de Estudos Avançados, em Bangalore, considerou impróprio estabelecer a escala com quatro níveis de plágio. “Isso não é aceitável, porque plágio é sempre plágio, não importa o tamanho”, disse à revista Science. Outros pesquisadores, ao contrário, consideram natural copiar outros trabalhos naqueles trechos de trabalhos acadêmicos que não requeiram originalidade. “Há um número limitado de maneiras de definir técnicas como ‘centrifugação’ ou ‘western blot’ e só vai gerar confusão se for exigido que cada pesquisador parafraseie essas definições a seu modo”, disse à Science Nandula Raghuram, professor de biotecnologia na Universidade Guru Gobind Singh Indraprastha. Ele não vê problema em que o plágio atinja até 90% das seções de um artigo científico dedicadas a métodos ou materiais, ao mesmo tempo que considera intolerável qualquer similaridade nos resultados, nas conclusões e no resumo de um artigo. Raghuram chama a atenção para outra limitação das regras – há pelo menos uma centena de universidades na Índia não vinculadas à UGC que não serão alcançadas pelas diretrizes.

Fonte: Pesquisa FAPESP

Interface ciência-público em tempos de correção da literatura científica: Questões éticas contemporâneas
24 de julho de 2018 | SciElo em Perspectiva

A atenção internacional a questões éticas envolvidas na comunicação científica é cada vez mais evidente e vem aumentando nas últimas décadas. Essa atenção inclui a do público, que vem tendo maior acesso a notícias sobre ciência e sobre o modus operandi de seu sistema de publicações. Nesse panorama amplo de notícias incluem-se casos de má conduta em pesquisa e outras infrações éticas no âmbito da produção científica. Embora haja discrepância no percentual de registros de pesquisa que envolvem má conduta – fabricação, falsificação e plágio, na definição mais formal do termo – esse número não ultrapassaria 2%. Entretanto, para além do fator quantitativo, o potencial impacto científico e social desses casos é uma das maiores preocupações de pesquisadores, educadores e gestores.

Na mídia, a repercussão geralmente é maior para casos de má conduta em pesquisas com grande potencial de aplicação em áreas de imediato interesse público. Nas ciências biomédicas, por exemplo, um dos casos com ampla publicidade internacional envolveu o cientista japonês Yoshiko Sasai, que era considerado um dos mais respeitados no campo da biologia do desenvolvimento. Sasai foi um dos responsáveis pela fundação do Center for Developmental Biology (CDB) do prestigioso instituto RIKEN, no Japão. Juntamente com colaboradores, incluindo a jovem cientista Haruko Obokata, Sasai vinha trabalhando em um método supostamente promissor de conversão de células somáticas em células pluripotentes, definido como Stimuli-Triggered Acquisition of Pluripotency (STAP, aquisição de pluripotência induzida por estímulo). Os resultados do estudo1foram publicados no periódico Nature em 2014. Obokata era a primeira autora dos dois artigos, cujos resultados teriam aplicação em várias áreas, incluindo a medicina regenerativa.

Para uma representação mais objetiva das expectativas em torno dessa contribuição, citamos uma matéria2 publicada em 2016 na revista americana The New Yorker. Na matéria2, Dana Goodyear relata que “até 2020, de acordo com a empresa de consultoria Frost & Sullivan, as terapias com células-tronco serão uma indústria global de 40 bilhões de dólares. O STAP parecia ser uma ponte para os objetivos de longo prazo do desenvolvimento de medicamentos paciente-específicos, modelagem avançada de doenças e, em última instância, a capacidade de regenerar partes do corpo sem o risco de rejeição do sistema imunológico”. A autora acrescenta que “Sasai comparou o STAP à reorganização do cosmos de Copérnico. Uma fortuna financeira, talvez até um prêmio Nobel, pode aguardar seus descobridores”. As publicações do Nature em 2014, tiveram imediata repercussão na mídia e na comunidade científica.

Pesquisadores da área manifestaram dificuldade para reproduzir os resultados descritos nos artigos, e, posteriormente, uma investigação indicou que havia sérias distorções nos dados da pesquisa. Os artigos publicados em janeiro de 2014 foram retratados em julho do mesmo ano. Sob o título “STAP retracted”3, o Editorial discute as retratações e relata que “Subjacente a essas questões, muitas vezes, está o desleixo, seja no manuseio dos dados, na sua análise ou na manutenção inadequada das anotações de laboratório… Uma manifestação desses problemas tem sido um crescimento no número de correções emitidas pelos periódicos nos últimos anos”.

As várias repercussões associadas a essas retratações na academia incluem o desmantelamento do próprio CDB e releituras sobre o ambiente de pesquisa nas instituições japonesas, que parecem ter se aprofundado com o suicídio de Sasai, em agosto de 2014.

Obituários publicados em periódicos científicos de grande visibilidade apresentam claramente a promissora trajetória científica de Sasai. Um deles4, de autoria do professor Arturo Alvarez-Buylla, da University of California at San Francisco, comenta: “Dado o orgulho que Yoshiki sentia pelo trabalho que fazia em seu país, seu prazer e devoção à boa ciência, a sua família e à vida, fiquei chocado ao descobrir que em 5 de agosto meu admirado colega e querido amigo havia tirado a própria vida. Claramente, seu estado mental sofreu um golpe muito duro em virtude da massiva cobertura midiática e de meses de alegações em torno dos dois artigos do Nature publicados em janeiro, do laboratório de Haruko Obokata”. Sasai teria registrado, pouco antes do suicídio, que estava cansado da “agressão injusta nos meios de comunicação de massa e a responsabilidade que sentia em relação ao RIKEN e seu laboratório”5.

Essa pequena exposição do referido cenário não oferece elementos suficientes para uma consideração da real dimensão do impacto desse caso na própria comunidade científica, na mídia e na percepção pública sobre as razões que podem motivar outros casos. Entretanto, esse pequeno retrato sugere a importância do papel do jornalismo científico em casos como esse – que abrem espaço para promover uma compreensão mais ampla do público sobre desafios éticos e sociais que o sistema de pesquisa hoje enfrenta. Dentre os fatores associados a esses desafios está a confiança pública na ciência – motivo de forte preocupação de pesquisadores e gestores.

No âmbito das publicações, esforços crescentes que, em alguma medida, respondem a tais desafios vêm sendo empregados. Esses esforços objetivam intensificar os mecanismos de autorregulação da ciência e “correção” do registro de pesquisa no âmbito da comunicação científica. Essa correção nem sempre é motivada por casos de má conduta em pesquisa, podendo ocorrer pela identificação de um erro honesto que pode invalidar resultados publicados. Essas iniciativas editoriais multiplicam as estratégias e as percepções sobre a necessidade de aumentar a confiabilidade do registro da pesquisa.

Partilhamos a ideia de que aumentar essa confiabilidade – dos pares e do público – é uma das demandas que a comunidade científica vem procurando responder de forma proativa e objetiva. Consistente com essa ideia, os mecanismos de correção da literatura científica vêm sendo ampliados.

Diferente do que acontecia há cerca de duas décadas, quando a correção formal de um artigo científico era rara, hoje esse recurso vem se integrando à cultura editorial de publicações. Nesse contexto, a influência desse processo de correção no fluxo e padrão de notícias sobre ciência merece especial atenção. Nos últimos anos, com um público com muito mais acesso – e, talvez, mais atento – a essas notícias, o papel do jornalismo científico na sociedade também ganha desafios adicionais. No artigo “How Journalists Can Help Hold Scientists Accountable”6, publicado em 2016 na revista Pacific Standard, o jornalista Michael Schulson discute alguns desses papéis, mas também faz algumas provocações. Em uma delas, Schulson descreve que “Normalmente os jornalistas não dizem que os ‘fatos mudam’; é trabalho do jornalista definir e divulgar os fatos”. O autor acrescenta que “Mesmo nas publicações mais respeitadas, os jornalistas científicos tendem a se posicionar como tradutores, transformando a linguagem técnica dos artigos científicos em resumos acessíveis ao público ”. Na visão de Schulson, “Deduz-se que o texto-fonte que estão traduzindo – a pesquisa científica original – chegue a eles como um fato irrepreensível”.

Essa perspectiva de Schulson pode ser considerada exagerada por alguns jornalistas científicos, mas parece ir ao encontro de questões já postas por Boyce Rensberger em um ensaio7 publicado no Nature. Rensberger dirigiu o Knight Science Journalism Fellowship Programme at the Massachusetts Institute of Technology (MIT), entre 1998-2008. Segundo o autor, “Para que os jornalistas científicos possam recuperar a relevância de seu trabalho para a sociedade, além de dominar as novas mídias, devem também aprender ciência suficiente para analisar e interpretar as descobertas – incluindo as motivações dos financiadores”.

Recentemente, Kathleen Hall Jamielson, diretora do Annenberg Public Policy Center da University of Pensilvannia, ao discutir a análise de narrativas que considera equivocadas na mídia em um artigo8publicado no PNAS, aponta a necessidade de mudança na forma como o processo de autocorreção da ciência vem sendo comunicado ao público. Uma das ideias que a autora fomenta é a de que vem ocorrendo um desequilíbrio entre a divulgação de violações de integridade científica e as tentativas de evitá-las. A autora destaca o papel do jornalista para “aumentar a compreensão da sociedade sobre a ciência e minimizar a vulnerabilidade pública a distorções na ciência”9. No âmbito da correção da literatura, Hall Jamielson reforça a perspectiva de Fanelli e de Marcus e Oransky. Nessa perspectiva, o aumento das retratações, por exemplo, seria um bom sinal (em termos de resposta ao problema), indicando que a autorregulação da ciência estaria funcionando.

Embora haja outros fatores que aprofundam a nossa compreensão sobre as retratações, uma questão que emerge nesse panorama é como esse processo de correção da literatura deve se articular com a dinâmica de divulgação de notícias sobre ciência. Para a interface ciência-público, a exposição a essa crescente atividade de correção abre um espaço singular que pode fortalecer a compreensão pública sobre a ciência, seus mecanismos de autorregulação e responsabilização. Como explorar esse espaço, fortemente articulado com pressupostos da integridade científica, é um dos desafios postos a todos os que estão atuando nessa interface – incluindo jornalistas científicos. Como já indicado, “a sociedade precisa ver a ciência escrutinada, bem como regurgitada, para que nela possa depositar sua confiança, e os jornalistas são parte importante desse processo”10.

Fonte:  SciELO