Renúncia no conselho editorial
Janeiro de 2018 | Pesquisa FAPESP

Dezenove pesquisadores, na maioria ligados à Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, abandonaram em novembro o conselho editorial da revista Scientific Reports, publicada pelo grupo Springer Nature. A renúncia foi um protesto contra a decisão da revista de não retratar um artigo que descreve um método de identificação de sequências reguladoras de DNA sobre o qual pesa uma acusação de plágio. Segundo o biomédico Michael Beer, da Johns Hopkins, o trabalho reproduz de forma disfarçada trechos de um artigo de sua autoria publicado em 2014 na PLOS Computational Biology e apresenta equações idênticas às que ele desenvolveu para o algoritmo de um software. Em vez de retratar o artigo, a revista optou por republicá-lo, dando mais crédito ao trabalho de Beer. Um dos autores do paper acusado é Liu Bin, do Instituto de Tecnologia Harbin, em Shenzhen, China, que também faz parte do conselho editorial da Scientific Reports.

De acordo com Richard White, editor da publicação, “as imprecisões e ambiguidades do artigo não justificam sua retratação”. Steven Salzberg, pesquisador da Universidade Johns Hopkins que conclamou seus colegas a renunciar, diz que ficou muito desapontado com a postura do periódico. “Quando um estudante comete plágio, não lhe damos a chance de revisar e republicar seu trabalho. Ele é alvo de sanções disciplinares fortes, que podem chegar à expulsão. A Scientific Reports está dando um exemplo muito ruim.”

Fonte:  Pesquisa FAPESP

A marca do escândalo na carreira
Janeiro de 2018 | Pesquisa FAPESP

Um grupo de pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mensurou o prejuízo que a retratação de um artigo científico causa à reputação de seus autores. De acordo com um trabalho publicado na revista Research Policy, um ano depois da retratação há um decréscimo médio de 10% na taxa esperada de citações dos outros papers publicados pelos mesmos autores. Se for evidente que o artigo foi cancelado não por erro, mas por má conduta, a queda na taxa de citações pode chegar a 20%, especialmente na produção científica de pesquisadores de renome e alta produtividade.

“A pergunta que fizemos foi: será que as retratações desencadeiam no âmbito individual algum tipo de mecanismo de infecção por meio do qual o autor é punido ou desacreditado por ter sido desonesto ou incompetente?”, disse ao site do MIT o economista Alessandro Bonatti, professor da MIT Sloan School of Management, que escreveu o trabalho juntamente com Pierre Azoulay, também do MIT, e Joshua Krieger, da Harvard Business School. “Constatamos que esse mecanismo de fato existe e se manifesta por meio das citações”, conclui Bonatti. Segundo ele, a comunidade científica aparentemente reavalia o conceito dos pesquisadores após um episódio de retratação, fazendo menos menções a seus trabalhos em novos artigos.

Para chegar a essa conclusão, a equipe do MIT e de Harvard analisou a produção científica de 376 pesquisadores norte-americanos do campo das ciências da vida que publicaram trabalhos, mais tarde retratados, entre os anos de 1977 e 2007. O desempenho deles, em termos de citações, foi comparado com o de um grupo de controle formado por 759 pesquisadores que não sofreram retratação e haviam publicado trabalhos nas mesmas edições dos periódicos em que ocorreram as retratações do primeiro grupo. É certo que artigos científicos têm um declínio natural no número de citações à medida que o tempo passa. O estudo mostrou, contudo, que os artigos ainda válidos dos pesquisadores tiveram um decréscimo adicional de 10% nas citações após o episódio da retratação, que não se relaciona com o processo de obsolescência dos artigos. O trabalho publicado na Research Policy utilizou a mesma base de dados de uma pesquisa de 2014 do mesmo grupo, segundo o qual escândalos causados por retratações têm impacto negativo em artigos sobre temas correlatos, ainda que assinados por outros autores (ver Pesquisa FAPESP nº 202).

Fonte: Pesquisa Fapesp

Denúncias anônimas e desculpas frágeis
Dezembro de 2017 | Pesquisa FAPESP

A revista Oncogene, editada pelo grupo Springer Nature, publicou em outubro um editorial condenando dois comportamentos recorrentes que tumultuam a investigação de fraudes ou falsificações em artigos científicos. Um deles é o costume de denunciar suspeitas de má conduta de forma anônima, em geral por meio de cartas ou e-mails assinados com pseudônimos. “Há razões legítimas para a proteção do anonimato de denunciantes e os detalhes não são revelados às partes envolvidas durante as investigações. Mas é importante que o denunciante se identifique para o editor quando a acusação é feita”, escreveram Justin Stebbing, editor-chefe da revista e pesquisador do Imperial College de Londres, e David Avram Sanders, da Universidade Purdue, nos Estados Unidos. “Isso não significa que denúncias anônimas devam ser ignoradas. Elas devem ser avaliadas em seus méritos. Mas a cultura do anonimato é inconsistente com os valores do empreendimento científico e clínico e precisa ser desencorajada.”

A dupla de editores também criticou de forma áspera e irônica as respostas evasivas que muitos autores dão aos pedidos de esclarecimento motivados por alguma suspeita ou incongruência encontrados em artigos publicados. Stebing e Sanders compilaram uma lista das desculpas mais frequentes. A mais comum é negar a existência do problema mesmo quando as evidências de que uma imagem tenha sido duplicada sejam esmagadoras. Essa estratégia tem nuanças: também há autores que, sem desqualificar totalmente a denúncia, tentam convencer os editores de que imagens obviamente duplicadas não são idênticas e que há pequenas diferenças entre elas, como em um jogo dos sete erros.

Outra resposta frequente, que os autores batizaram de “meu cachorro comeu os dados”, envolve dizer que não há mais como tirar a dúvida porque os dados originais se perderam. Essa desculpa, diz o editorial, pode eventualmente ser válida. “Mas algumas vezes a manipulação é tão evidente que a falta dos dados originais não é circunstância atenuante.” Também é frequente tentar se livrar da culpa atribuindo o problema à inexperiência de pesquisadores juniores ou à falta de familiaridade com padrões de qualidade de colaboradores de outros países, ou então argumentar que a duplicação de dados não compromete os resultados do artigo. Nenhuma delas, contudo, reduz o impacto do erro ou exime o autor de suas responsabilidades.

Por fim, também há quem se faça de vítima e atribua a denúncia à perseguição anônima. “Talvez seja verdade, mas é irrelevante”, avalia o editorial. Afinal, não é porque o pesquisador virou alvo de um desafeto que a fraude ou a falsificação que cometeu se tornará aceitável.

Fonte: Pesquisa FAPESP

Um plano para promover a integridade
Novembro de 2017 | Revista FAPESP

O Instituto Karolinska, em Estocolmo, Suécia, apresentou um balanço do primeiro ano de implementação de um plano concebido para corrigir falhas que colocaram em risco a integridade da pesquisa na instituição, uma das mais respeitadas da Europa e conhecida por selecionar os vencedores do Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia. Um dos pilares da estratégia envolve as rotinas administrativas para o recrutamento de pesquisadores, com a introdução de mecanismos redundantes para obter referências e verificar os dados registrados em currículos de candidatos. A responsabilidade por apurar casos de má conduta passou a ser dividida pela vice-chancelaria e o escritório jurídico da instituição, com o apoio de um especialista designado para coordenar a investigação.

O plano se baseou em recomendações feitas por uma auditoria interna e por um relatório produzido por um investigador independente, o jurista Sten Heckscher, a respeito de um caso de má conduta envolvendo o cirurgião italiano Paolo Macchiarini, pioneiro em transplantes de traqueia. As investigações concluíram que o médico divulgou informações inverídicas em seu currículo e publicou dados enviesados sobre o desempenho dos transplantes em sete artigos científicos. A instituição foi criticada por manter o pesquisador em seus quadros mesmo quando já havia evidências de má conduta, por omitir-se na aplicação de regulamentos e no monitoramento de dados de pesquisa e por cometer falhas no processo de recrutamento. Três membros da direção do Instituto Karolinska renunciaram no ano passado em razão do escândalo.

Macchiarini foi contratado em 2010 com dupla função: a de professor visitante do Instituto Karolinska, encarregado de conduzir pesquisa básica sobre células-tronco, e a de cirurgião no hospital de ensino da instituição. O italiano propunha testar uma cirurgia experimental utilizando traqueias artificiais recobertas com células-tronco extraídas dos pacientes. A técnica foi aplicada em 2012 em três pacientes que já haviam esgotado outros recursos terapêuticos e os resultados foram desanimadores: apenas um deles sobreviveu e, mesmo assim, está hospitalizado até hoje.

Em 2013, o hospital de ensino interrompeu os transplantes e dispensou Macchiarini, que seguiu trabalhando apenas como pesquisador no Karolinska. Ele anunciou, então, que levaria adiante as cirurgias com traqueias artificiais em uma escola de medicina em Krasnodar, na Rússia, e recebeu autorização da instituição sueca para essa atividade.

Em 2014, Macchiarini enfrentou a primeira acusação de má conduta feita por um pesquisador belga, mas acabou inocentado pelo instituto. Em seguida, foi acusado em duas ações diferentes de publicar dados enviesados em sete artigos científicos, descrevendo de forma parcial o estado pós-operatório de pacientes e a funcionalidade dos transplantes. Os acusadores trabalharam no hospital de ensino com o cirurgião e alguns deles eram coautores dos papers sob suspeita. Uma análise do caso feita por Bengt Gerdin, professor emérito da Universidade de Uppsala, concluiu que havia indícios de má conduta científica, mas ainda assim o italiano foi absolvido, com a ressalva de que suas pesquisas não haviam cumprido os padrões de qualidade exigidos pela instituição. No final de 2015, o contrato de Macchiarini no Instituto Karolinska foi renovado.

O caso ganhou contornos de escândalo no início de 2016, quando a revista norte-americana Vanity Fair publicou um perfil de Macchiarini mostrando que ele inflou seu currículo com cargos de prestígio em universidades que, na verdade, nunca ocupou. Ao mesmo tempo, um documentário exibido na televisão sueca mostrou como pacientes transplantados sofreram e morreram depois da cirurgia e levantou questões sobre os cuidados e a ética dos experimentos. Um dos casos reportados foi o de uma jovem operada no hospital da Rússia, que morreu. Na Suécia, ela não seria elegível para a operação experimental por não correr risco de vida.

Em fevereiro, o Instituto Karolinska decidiu abrir uma ampla investigação independente sobre a conduta do pesquisador. O biólogo Urban Lendahl renunciou à função de secretário do Comitê Nobel no Karolinska por estar sendo investigado. O vice-chanceler Anders Hamsten pediu demissão ao anunciar que um novo inquérito havia sido aberto, com base em indícios de que o cirurgião teria falsificado dados sobre um transplante pioneiro realizado na Islândia que embasava vários de seus artigos científicos. O pró-reitor de pesquisa Hans-Gustaf Ljunggren também deixou o cargo. Só então Macchiarini foi demitido.

Comitê de ética

Os responsáveis pela aplicação do plano de ação dizem que a tarefa está levando mais tempo do que o previsto. “Começamos a implementar algumas medidas, melhorando a comunicação dentro do instituto e investigando o ambiente dos laboratórios, mas ainda há muito o que fazer”, disse ao site Science Business a vice-chanceler assistente do instituto, Karin Dahlman-Wright, que é professora de endocrinologia molecular da instituição. Uma das propostas que ainda não saiu do papel é a organização de um comitê de ética, encarregado não de investigar casos de má conduta, mas de atuar na promoção de boas práticas na instituição – seus membros serão indicados em breve. “Esse é um elemento vital para promover uma sólida plataforma ética e será implementado logo”, disse Dahlman-Wright.

Desde 2010, está disponível um sistema eletrônico para registro de dados de pesquisa, cuja utilização, contudo, não era obrigatória – a partir do ano que vem será. A divisão de responsabilidades entre o instituto e seu hospital foi aperfeiçoada. Agora, respondem de forma solidária pela integridade das pesquisas clínicas o gestor do hospital de ensino, o líder do projeto no Instituto Karolinska e o chefe do departamento ao qual ele está vinculado.

O treinamento de líderes é outro foco do plano. Chefes de departamento e gestores terão de fazer um curso obrigatório sobre ética e governança a partir de 2018, baseado em diretrizes que ainda estão sendo definidas. Outros tipos de treinamento serão implementados. Os novos pesquisadores e funcionários terão à disposição cursos de curta duração com foco em ética e gestão de dados de pesquisa. Um website com linguagem simples sobre regulamentos e boas práticas deverá ser criado para nortear o trabalho no instituto.

Ao tomar posse como novo vice-chanceler, no final de setembro, o neurocientista Ole Petter Ottersen resumiu os desafios do Instituto Karolinska. “Há coisas fantásticas acontecendo na nossa instituição, como a construção de edifícios e a consequente abertura de novas oportunidades em pesquisa e educação. Mas os pré-requisitos para a excelência em pesquisa e educação são uma boa cultura de trabalho e a consciência ética”, disse, segundo consta no site do instituto.

Fonte:Revista FAPESP

Comitê de Boas Práticas da USP investirá em educação e prevenção
Novembro de 2017 | Revista FAPESP

A Pró-reitoria de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) criou em setembro seu Comitê de Boas Práticas Científicas. O órgão, composto por cinco membros, vai se reunir uma vez por mês e tem um duplo objetivo: promover ações educativas no campo da integridade científica e ajudar a prevenir casos de má conduta. O foco inicial são alunos de iniciação científica e estagiários de pós-doutorado, dois públicos atendidos pela pró-reitoria. Entre as iniciativas do comitê, destacam-se o lançamento previsto para este ano de uma plataforma de cursos on-line sobre boas práticas, a organização regular de palestras e eventos e a divulgação de textos e documentos de referência no site da pró-reitoria. A percepção é de que há escassez de informações sobre integridade científica. “Existem má-fé e fraude, mas muitos desses problemas estão relacionados ao desconhecimento sobre boas práticas na pesquisa”, disse à Agência FAPESP o pró-reitor José Eduardo Krieger, da Faculdade de Medicina da USP.

De acordo com Hamilton Varela, do Instituto de Química de São Carlos da USP e assessor da pró-reitoria, a disseminação das boas práticas exige uma mudança cultural. “Em uma universidade como a nossa, com quase 6 mil professores, precisamos de meios eficientes para auxiliar o trabalho das comissões de pesquisa. Em algumas unidades, há iniciativas maduras, mas em outras ainda não.” A oferta no site da pró-reitoria de documentos de referência e reportagens – entre os quais os mais de 150 textos publicados nesta seção de Pesquisa FAPESP desde 2011 – busca estimular a discussão em laboratórios e salas de aula. “É possível introduzir para os alunos temas relacionados à integridade científica utilizando esse material”, diz Varela.

A plataforma de cursos on-line terá produção própria e também deve usar vídeos e material didático de unidades e programas de pós-graduação da instituição. “Uma ideia é fornecer no site apostilas e exigir que alunos de iniciação científica façam provas on-line sobre aquele conteúdo como requisito para participarem de pesquisas”, conta Varela. Uma iniciativa experimental é o uso de um caderno de laboratório on-line, o SciNote, que guarda em uma nuvem computacional todas anotações sobre o andamento de um projeto. “A boa manutenção das anotações é essencial para acompanhar os resultados e garantir que eles possam ser reproduzidos por outros grupos.”

A criação do comitê é parte do programa da atual gestão da pró-reitoria e atende a uma demanda da FAPESP em seu Código de boas práticas, lançado em 2011, segundo o qual as instituições com projetos financiados pela Fundação devem dispor de órgãos encarregados de oferecer programas de treinamento e educação em integridade científica, além de estruturas voltadas para investigar e punir casos de má conduta. “A USP já dispunha de mecanismos para investigar denúncias, mas faltava organizar as ações de educação e prevenção”, afirma Varela.

Fonte: Revista FAPESP

Dealing with Unethical or Illegal Conduct in Higher Education
1 de Novembro | The Scientist

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