Quatro tons de plágio acadêmico
Setembro de 2018 | Pesquisa FAPESP

Índia lança diretrizes para punir apropriação de ideias em trabalhos científicos e propõe uma escala para avaliar a gravidade do problema. 

University Grants Comission (UCG), órgão do governo da Índia que regulamenta e coordena o funcionamento de 867 universidades do país, lançou um conjunto de diretrizes para identificar e punir casos de plágio envolvendo artigos científicos, livros, monografias e teses. Entre as novas regras, que entraram em vigor no final de julho, tornou-se obrigatório para professores o uso de softwares de detecção de plágio em textos acadêmicos de seus alunos. As instituições também serão responsáveis por treinar estudantes, docentes e membros de seu corpo técnico para que possam utilizar essas ferramentas. Orientadores e supervisores deverão certificar que os trabalhos de seus alunos foram verificados por esse tipo de software e estão isentos de suspeitas. Nas universidades, cada departamento terá de criar um painel para investigar acusações de plágio. Caberá a uma instância ligada a cada reitoria a análise de recursos contra a decisão dos painéis.

O plágio acadêmico é definido nas diretrizes da UCG como “tomar o trabalho ou a ideia de outra pessoa e apresentá-lo como sendo seu”. O órgão, no entanto, considerou que o problema pode ser matizado em quatro diferentes níveis – quanto mais extenso o plágio, mais severas devem ser as punições (ver quadro). O nível zero é aquele que em menos de 10% do conteúdo de um trabalho tem similaridades com outros textos que não foram admitidas pelo autor – até esse limite, não há penalidades previstas. Já quando a semelhança atinge mais de 60% de um trabalho acadêmico, as punições podem chegar ao cancelamento da matrícula do estudante plagiador ou, se o acusado for um docente ou um pesquisador, a proibição de orientar ou supervisionar alunos por três anos. Infratores contumazes serão alvo de processos disciplinares e poderão ser demitidos.

“A regulação é um passo necessário na direção certa”, disse à revista Science Virander Chauhan, chefe do Conselho Nacional de Avaliação e Acreditação, um braço da UGC. A comunidade científica indiana, no entanto, reagiu às diretrizes com críticas e ceticismo. O físico nuclear Valangiman Subramanian Ramamurthy, que dirigiu o Instituto Nacional de Estudos Avançados, em Bangalore, considerou impróprio estabelecer a escala com quatro níveis de plágio. “Isso não é aceitável, porque plágio é sempre plágio, não importa o tamanho”, disse à revista Science. Outros pesquisadores, ao contrário, consideram natural copiar outros trabalhos naqueles trechos de trabalhos acadêmicos que não requeiram originalidade. “Há um número limitado de maneiras de definir técnicas como ‘centrifugação’ ou ‘western blot’ e só vai gerar confusão se for exigido que cada pesquisador parafraseie essas definições a seu modo”, disse à Science Nandula Raghuram, professor de biotecnologia na Universidade Guru Gobind Singh Indraprastha. Ele não vê problema em que o plágio atinja até 90% das seções de um artigo científico dedicadas a métodos ou materiais, ao mesmo tempo que considera intolerável qualquer similaridade nos resultados, nas conclusões e no resumo de um artigo. Raghuram chama a atenção para outra limitação das regras – há pelo menos uma centena de universidades na Índia não vinculadas à UGC que não serão alcançadas pelas diretrizes.

Fonte: Pesquisa FAPESP

Interface ciência-público em tempos de correção da literatura científica: Questões éticas contemporâneas
24 de julho de 2018 | SciElo em Perspectiva

A atenção internacional a questões éticas envolvidas na comunicação científica é cada vez mais evidente e vem aumentando nas últimas décadas. Essa atenção inclui a do público, que vem tendo maior acesso a notícias sobre ciência e sobre o modus operandi de seu sistema de publicações. Nesse panorama amplo de notícias incluem-se casos de má conduta em pesquisa e outras infrações éticas no âmbito da produção científica. Embora haja discrepância no percentual de registros de pesquisa que envolvem má conduta – fabricação, falsificação e plágio, na definição mais formal do termo – esse número não ultrapassaria 2%. Entretanto, para além do fator quantitativo, o potencial impacto científico e social desses casos é uma das maiores preocupações de pesquisadores, educadores e gestores.

Na mídia, a repercussão geralmente é maior para casos de má conduta em pesquisas com grande potencial de aplicação em áreas de imediato interesse público. Nas ciências biomédicas, por exemplo, um dos casos com ampla publicidade internacional envolveu o cientista japonês Yoshiko Sasai, que era considerado um dos mais respeitados no campo da biologia do desenvolvimento. Sasai foi um dos responsáveis pela fundação do Center for Developmental Biology (CDB) do prestigioso instituto RIKEN, no Japão. Juntamente com colaboradores, incluindo a jovem cientista Haruko Obokata, Sasai vinha trabalhando em um método supostamente promissor de conversão de células somáticas em células pluripotentes, definido como Stimuli-Triggered Acquisition of Pluripotency (STAP, aquisição de pluripotência induzida por estímulo). Os resultados do estudo1foram publicados no periódico Nature em 2014. Obokata era a primeira autora dos dois artigos, cujos resultados teriam aplicação em várias áreas, incluindo a medicina regenerativa.

Para uma representação mais objetiva das expectativas em torno dessa contribuição, citamos uma matéria2 publicada em 2016 na revista americana The New Yorker. Na matéria2, Dana Goodyear relata que “até 2020, de acordo com a empresa de consultoria Frost & Sullivan, as terapias com células-tronco serão uma indústria global de 40 bilhões de dólares. O STAP parecia ser uma ponte para os objetivos de longo prazo do desenvolvimento de medicamentos paciente-específicos, modelagem avançada de doenças e, em última instância, a capacidade de regenerar partes do corpo sem o risco de rejeição do sistema imunológico”. A autora acrescenta que “Sasai comparou o STAP à reorganização do cosmos de Copérnico. Uma fortuna financeira, talvez até um prêmio Nobel, pode aguardar seus descobridores”. As publicações do Nature em 2014, tiveram imediata repercussão na mídia e na comunidade científica.

Pesquisadores da área manifestaram dificuldade para reproduzir os resultados descritos nos artigos, e, posteriormente, uma investigação indicou que havia sérias distorções nos dados da pesquisa. Os artigos publicados em janeiro de 2014 foram retratados em julho do mesmo ano. Sob o título “STAP retracted”3, o Editorial discute as retratações e relata que “Subjacente a essas questões, muitas vezes, está o desleixo, seja no manuseio dos dados, na sua análise ou na manutenção inadequada das anotações de laboratório… Uma manifestação desses problemas tem sido um crescimento no número de correções emitidas pelos periódicos nos últimos anos”.

As várias repercussões associadas a essas retratações na academia incluem o desmantelamento do próprio CDB e releituras sobre o ambiente de pesquisa nas instituições japonesas, que parecem ter se aprofundado com o suicídio de Sasai, em agosto de 2014.

Obituários publicados em periódicos científicos de grande visibilidade apresentam claramente a promissora trajetória científica de Sasai. Um deles4, de autoria do professor Arturo Alvarez-Buylla, da University of California at San Francisco, comenta: “Dado o orgulho que Yoshiki sentia pelo trabalho que fazia em seu país, seu prazer e devoção à boa ciência, a sua família e à vida, fiquei chocado ao descobrir que em 5 de agosto meu admirado colega e querido amigo havia tirado a própria vida. Claramente, seu estado mental sofreu um golpe muito duro em virtude da massiva cobertura midiática e de meses de alegações em torno dos dois artigos do Nature publicados em janeiro, do laboratório de Haruko Obokata”. Sasai teria registrado, pouco antes do suicídio, que estava cansado da “agressão injusta nos meios de comunicação de massa e a responsabilidade que sentia em relação ao RIKEN e seu laboratório”5.

Essa pequena exposição do referido cenário não oferece elementos suficientes para uma consideração da real dimensão do impacto desse caso na própria comunidade científica, na mídia e na percepção pública sobre as razões que podem motivar outros casos. Entretanto, esse pequeno retrato sugere a importância do papel do jornalismo científico em casos como esse – que abrem espaço para promover uma compreensão mais ampla do público sobre desafios éticos e sociais que o sistema de pesquisa hoje enfrenta. Dentre os fatores associados a esses desafios está a confiança pública na ciência – motivo de forte preocupação de pesquisadores e gestores.

No âmbito das publicações, esforços crescentes que, em alguma medida, respondem a tais desafios vêm sendo empregados. Esses esforços objetivam intensificar os mecanismos de autorregulação da ciência e “correção” do registro de pesquisa no âmbito da comunicação científica. Essa correção nem sempre é motivada por casos de má conduta em pesquisa, podendo ocorrer pela identificação de um erro honesto que pode invalidar resultados publicados. Essas iniciativas editoriais multiplicam as estratégias e as percepções sobre a necessidade de aumentar a confiabilidade do registro da pesquisa.

Partilhamos a ideia de que aumentar essa confiabilidade – dos pares e do público – é uma das demandas que a comunidade científica vem procurando responder de forma proativa e objetiva. Consistente com essa ideia, os mecanismos de correção da literatura científica vêm sendo ampliados.

Diferente do que acontecia há cerca de duas décadas, quando a correção formal de um artigo científico era rara, hoje esse recurso vem se integrando à cultura editorial de publicações. Nesse contexto, a influência desse processo de correção no fluxo e padrão de notícias sobre ciência merece especial atenção. Nos últimos anos, com um público com muito mais acesso – e, talvez, mais atento – a essas notícias, o papel do jornalismo científico na sociedade também ganha desafios adicionais. No artigo “How Journalists Can Help Hold Scientists Accountable”6, publicado em 2016 na revista Pacific Standard, o jornalista Michael Schulson discute alguns desses papéis, mas também faz algumas provocações. Em uma delas, Schulson descreve que “Normalmente os jornalistas não dizem que os ‘fatos mudam’; é trabalho do jornalista definir e divulgar os fatos”. O autor acrescenta que “Mesmo nas publicações mais respeitadas, os jornalistas científicos tendem a se posicionar como tradutores, transformando a linguagem técnica dos artigos científicos em resumos acessíveis ao público ”. Na visão de Schulson, “Deduz-se que o texto-fonte que estão traduzindo – a pesquisa científica original – chegue a eles como um fato irrepreensível”.

Essa perspectiva de Schulson pode ser considerada exagerada por alguns jornalistas científicos, mas parece ir ao encontro de questões já postas por Boyce Rensberger em um ensaio7 publicado no Nature. Rensberger dirigiu o Knight Science Journalism Fellowship Programme at the Massachusetts Institute of Technology (MIT), entre 1998-2008. Segundo o autor, “Para que os jornalistas científicos possam recuperar a relevância de seu trabalho para a sociedade, além de dominar as novas mídias, devem também aprender ciência suficiente para analisar e interpretar as descobertas – incluindo as motivações dos financiadores”.

Recentemente, Kathleen Hall Jamielson, diretora do Annenberg Public Policy Center da University of Pensilvannia, ao discutir a análise de narrativas que considera equivocadas na mídia em um artigo8publicado no PNAS, aponta a necessidade de mudança na forma como o processo de autocorreção da ciência vem sendo comunicado ao público. Uma das ideias que a autora fomenta é a de que vem ocorrendo um desequilíbrio entre a divulgação de violações de integridade científica e as tentativas de evitá-las. A autora destaca o papel do jornalista para “aumentar a compreensão da sociedade sobre a ciência e minimizar a vulnerabilidade pública a distorções na ciência”9. No âmbito da correção da literatura, Hall Jamielson reforça a perspectiva de Fanelli e de Marcus e Oransky. Nessa perspectiva, o aumento das retratações, por exemplo, seria um bom sinal (em termos de resposta ao problema), indicando que a autorregulação da ciência estaria funcionando.

Embora haja outros fatores que aprofundam a nossa compreensão sobre as retratações, uma questão que emerge nesse panorama é como esse processo de correção da literatura deve se articular com a dinâmica de divulgação de notícias sobre ciência. Para a interface ciência-público, a exposição a essa crescente atividade de correção abre um espaço singular que pode fortalecer a compreensão pública sobre a ciência, seus mecanismos de autorregulação e responsabilização. Como explorar esse espaço, fortemente articulado com pressupostos da integridade científica, é um dos desafios postos a todos os que estão atuando nessa interface – incluindo jornalistas científicos. Como já indicado, “a sociedade precisa ver a ciência escrutinada, bem como regurgitada, para que nela possa depositar sua confiança, e os jornalistas são parte importante desse processo”10.

Fonte:  SciELO

Estratégia radical contra a má conduta
Julho de 2018 | Pesquisa FAPESP

O governo chinês anunciou uma reforma para melhorar a qualidade da ciência do país baseada no combate radical à má conduta científica. No dia 30 de maio, o Partido Comunista e o Conselho de Estado da China divulgaram as linhas gerais das mudanças, que deverão ser detalhadas e implantadas em breve. Elas preveem, por exemplo, a criação de uma lista de revistas científicas de má qualidade – e a determinação de que artigos publicados nesses periódicos não contarão pontos em seleções para bolsas e empregos ou em processos de avaliação de agências de fomento chinesas. Outra novidade é que o Ministério da Ciência e Tecnologia assumirá a responsabilidade de apurar casos de má conduta, tarefa que era descentralizada e cabia às universidades e instituições científicas. Os pesquisadores envolvidos em escândalos terão seus nomes incluídos em um banco de dados e poderão ser privados de financiamento ou perder o emprego.

Segundo a agência oficial de notícias Xinhua, o objetivo do governo é criar um “mecanismo de integridade científica”, que ao mesmo tempo favoreça a inovação e combata com rigor casos de má conduta. Responsável por mais de 18% da produção científica mundial indexada na base Scopus, a China ultrapassou os Estados Unidos em número de artigos científicos publicados, mas também protagonizou escândalos envolvendo fraude, plágio e falsificação. Em um dos casos mais recentes, a revista Tumor Biology retratou no ano passado 107 artigos de autores chineses por manipulação da revisão por pares.

O Ministério da Ciência e Tecnologia e as agências de fomento do país vão criar padrões para definir desvios de conduta, normas para investigar acusações e punições para cada tipo de falha ética. Instituições que protegerem pesquisadores acusados poderão ser penalizadas com perda de recursos. Nicholas Steneck, especialista em integridade científica da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, Estados Unidos, disse à revista Nature que é inédita a ideia de punir ao mesmo tempo instituições e periódicos e que a política sobre publicações pode se tornar modelo para outros países.

Também estão previstas mudanças na forma como os cientistas são avaliados. A ideia é considerar o impacto e o potencial inovador da produção de cada pesquisador, em vez de contabilizar a quantidade de artigos e valorizar aqueles divulgados em revistas de alto impacto, como se faz hoje. O químico Derek Lowe, diretor da multinacional farmacêutica Novartis, escreveu em seu blog na revista Science que a reforma chinesa, apesar de ter bons propósitos, deve enfrentar problemas de implementação. Um deles, ele observa, será a dificuldade de apontar todas as revistas de má qualidade, já que várias delas mesclam artigos bons e ruins. Ele também teme efeitos colaterais, como o uso de falsas alegações de má conduta para prejudicar pesquisadores rivais ou a perseguição a delatores honestos. “De todo modo, será algo interessante de ver”, afirmou.

Fonte: Pesquisa FAPESP

A sombra das revistas predatórias no Brasil
Agosto de 2018 | Pesquisa FAPESP

Estudo mostra quantos pesquisadores do país publicam em periódicos com práticas suspeitas

Um estudo feito por pesquisadores da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisou a penetração na comunidade científica do país das chamadas revistas predatórias, periódicos internacionais de acesso aberto que adotam critérios frouxos para selecionar papers, bastando que os autores paguem para vê-los publicados. Em um artigo divulgado em julho na revista Scientometrics, o grupo compilou a produção científica entre 2000 e 2015 dos brasileiros com título de doutor cadastrados na plataforma de currículos Lattes – o total foi de 2,3 milhões de publicações de 102.969 pesquisadores. Com base nessas informações, foram rastreados os artigos difundidos em periódicos suspeitos.

Um dado alentador é que tais revistas seduzem uma fração pequena de autores brasileiros – entre 0,26% e 0,49% do total de artigos publicados, dependendo dos critérios adotados. O grupo da UFRGS selecionou três parâmetros para identificar periódicos com práticas controversas. Um deles foi a menção ao título da revista em uma listagem de mais de 1,5 mil publicações suspeitas, produzida entre 2010 e 2017 pelo biblioteconomista norte-americano Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado. Apenas 0,49% dos artigos estavam em revistas inseridas nesse índice. Tal critério, contudo, é polêmico – o próprio Beall, um crítico do acesso aberto, aboliu a lista depois de ser ameaçado com processos por editoras que se sentiam injustiçadas.

Para prevenir vieses, os pesquisadores adotaram cuidados extras. Primeiro, combinaram dois parâmetros diferentes: não bastava o periódico fazer parte da lista de Beall, mas também era necessário que estivesse ausente do Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj), que exige de seus afiliados a adoção de normas básicas de qualidade, como a existência de revisão por pares dos manuscritos. Analisando esses dois critérios, o percentual de artigos brasileiros divulgados em revistas possivelmente predatórias caiu para 0,44% do total. Por fim, associou-se um terceiro critério, que é a inexistência de avaliação do impacto da publicação por meio de indicadores de citações como o Journal Citation Reports, vinculado à base Web of Science, ou do Scientific Journal Rankings, do grupo espanhol Scimago – quanto mais precário é o periódico, menor costuma ser a chance de ser citado. As publicações que se encaixavam nas três características representaram 0,26% do total.

Embora a penetração das revistas predatórias seja restrita, o estudo apontou motivos de preocupação. Um deles é que vem crescendo o número de autores brasileiros que recorrem a esses periódicos. “Entre 2010 e 2015, triplicou o número de artigos de brasileiros em revistas listadas por Jeffrey Beall”, diz o engenheiro Denis Borenstein, especialista em pesquisa operacional aplicada, um dos autores do estudo. O dado mais delicado, porém, é que várias revistas apontadas como predatórias estavam presentes no sistema Qualis Periódicos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que classifica cerca de 30 mil publicações para avaliar a produção científica dos programas de pós-graduação do Brasil. “Em todas as áreas do conhecimento, havia revistas recomendadas pelo Qualis que se encaixam nos três critérios adotados por nós para identificar práticas predatórias. Nenhuma delas têm conceito elevado, mas o fato de valerem algo na avaliação estimula pesquisadores a submeterem artigos a elas”, explica Borenstein.

Avaliação quadrienal

A classificação do Qualis Periódicos é atualizada anualmente por comitês de especialistas de 49 áreas que são responsáveis pela avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação brasileiros. Talita Moreira de Oliveira, coordenadora-geral de atividades de apoio à pós-graduação da Capes, explica que os membros desses comitês fazem um esforço contínuo para identificar publicações predatórias e eliminam várias delas a cada ano, mas, com a entrada constante de novos periódicos, o trabalho nunca termina. “Quando uma revista não é indexada em bases internacionais, tentamos avaliar de outras maneiras se ela tem qualidade. As comissões de áreas tiveram acesso e reavaliaram algumas revistas no Qualis entre 2013 e 2016 com base em algumas listas de possíveis veículos predatórios, mas não existe uma lista fechada”, afirma. Segundo ela, o fato de revistas suspeitas eventualmente escaparem do crivo dos comitês não significa que resultaram em uma avaliação vantajosa para quem publicou nelas.“A classificação do Qualis que tem valor é aquela do ano em que a avaliação quadrienal é feita e a mais recente foi em 2016. Já aconteceu, por exemplo, na área de zootecnia, de programas de pós-graduação terem a nota rebaixada porque tinham muitas publicações em revistas apontadas como predatórias – mas isso só foi descoberto nos momentos finais da avaliação e os artigos foram desconsiderados”, diz.

Segundo os autores, das cinco revistas suspeitas mais utilizadas por brasileiros, três são de agronomia: o American Journal of Plant Sciences, o International Journal of Food, Agriculture and Environment e o Agricultural Sciences. Também há um periódico de química, o American Journal of Analytical Chemistry, e outro de economia, o Journal of Academy of Business and Economics.

O interesse do grupo da UFRGS pelo tema surgiu há cerca de cinco anos. “Chamou minha atenção o interesse de pesquisadores que conheço por publicar em uma revista chamada African Journal of Business Management, que havia sido incluída no Journal Citation Reports, embora com fator de impacto baixo. Fui pesquisar e descobri que havia denúncias de práticas predatórias. Avisei os colegas e mandei uma carta à Capes comunicando o achado”, afirma Borenstein. A revista, que não está mais indexada em bases internacionais, é editada pela empresa nigeriana Academic Journals. Uma parceria com outro pesquisador da UFRGS, o especialista em métodos quantitativos Marcelo Perlin, permitiu coletar dados da plataforma Lattes e analisá-los.

O estudo fez outras constatações. Não se confirmou a ideia de que pesquisadores jovens e inexperientes são o público principal desses periódicos. Observou-se que, quanto mais antigo era o título de doutor, maior era a probabilidade de o autor publicar em títulos suspeitos. “A má conduta está associada a pesquisadores experientes, que possivelmente têm conhecimento das práticas levianas, mas acham que podem se beneficiar delas.”

Fonte: Pesquisa FAPESP

Uma rede para reproduzir experimentos
Maio de 2018 | Revista Pesquisa FAPESP

010 Boaspraticas 03Um grupo de pesquisadores do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai organizar nos próximos meses uma rede de laboratórios incumbida de repetir até 100 experimentos em ciências biomédicas publicados em artigos científicos brasileiros – o objetivo é verificar o quanto é possível reproduzir os resultados que foram divulgados. Batizado de Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, o projeto recebeu financiamento do Instituto Serrapilheira. O primeiro passo será selecionar cinco métodos bastante difundidos para refazer experimentos – entre os candidatos, há técnicas como o Western Blot, de detecção de proteínas, Elisa, de detecção de anticorpos, ou RT-PCR, de quantificação de RNA, além de modelos baseados em culturas de células e roedores. “Queremos escolher métodos consagrados

e fáceis de fazer, pois a etapa seguinte será convidar centros capazes de realizá-los em vários lugares do país interessados em participar da rede”, afirma o médico Olavo Amaral, coordenador do projeto. Ele espera credenciar os laboratórios participantes até o final do ano.

A escolha dos experimentos a serem replicados deverá ser feita de forma aleatória entre artigos científicos brasileiros que os utilizaram. “A intenção é selecionar pelo menos 20 experimentos relacionados a cada método e saber em que proporção dessa amostra os resultados se confirmam”, explica Amaral. Para o primeiro ano de trabalho, durante o qual serão montados os protocolos para replicar as pesquisas, o Instituto Serrapilheira vai investir R$ 145 mil. Encerrada essa etapa, o grupo da UFRJ espera obter uma nova rodada de financiamento para a realização dos testes – a estimativa é gastar cerca de R$ 1 milhão na empreitada. “O valor é pequeno diante do volume de recursos investidos por agências de fomento à pesquisa no país. É importante aperfeiçoar os mecanismos de controle de qualidade dos resultados obtidos.” Cada experimento selecionado deverá ser refeito em pelo menos três laboratórios.

Amaral observa que nem sempre a revisão por pares dos artigos científicos é suficiente para detectar falhas na metodologia ou na execução dos experimentos. “Mas ninguém sabe qual é a extensão desse problema”, afirma. “Alguns levantamentos feitos em outros países avaliando áreas específicas de pesquisa conseguiram confirmar menos da metade dos resultados anunciados em artigos.”

Disseminação desigual
Março de 2018 | Revista Pesquisa FAPESP

Reúso de informações científicas ainda é baixo e varia de acordo com a área do conhecimento

044 reuso-de-dados 265-760x1024O reúso de dados de pesquisa vem crescendo, mas ainda está longe de se consolidar no ambiente científico. A prática, que consiste em fazer estudos aproveitando dados gerados em experimentos anteriores de outros pesquisadores, dissemina-se mais efetivamente nas ciências exatas e biológicas, enquanto enfrenta resistência nas ciências sociais. Em geral, os pesquisadores que trabalham com informações obtidas por meio de modelos computacionais ou sensores remotos se sentem mais confortáveis em reaproveitar dados de terceiros. Essa é uma das conclusões de um artigo publicado na revista PLOS ONE pela cientista de dados Renata Curty, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná.

Com base nas respostas de 595 pesquisadores de diferentes disciplinas e países, ela e seus colaboradores avaliaram o grau de disseminação do reúso de dados e a percepção dos fatores que estimulam ou desencorajam a prática. Uma curiosidade é que essa análise se baseou em dados reutilizados. A fonte original foi mais de mil questionários respondidos por pesquisadores entre outubro de 2013 e março de 2014 no âmbito do Data Observation Network for Earth (DataONE), projeto da National Science Foundation (NSF).

Renata estuda a percepção acerca do reúso de informações científicas desde o doutorado na Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos. À época, ela verificou que os pesquisadores das ciências sociais enxergam consequências potencialmente prejudiciais associadas à reutilização de dados. “Muitos têm receio de violar questões éticas ou de confidencialidade estabelecidas entre os sujeitos da pesquisa e investigadores”, ela explica. Outra preocupação diz respeito ao risco de má interpretação ou uso incorreto das informações originais. A opinião dos cientistas sociais sobre reaproveitamento de dados também é fortemente influenciada pelo próprio campo de atuação, que privilegia a produção de conhecimento novo. “Trabalhos que reutilizam dados são considerados menos autênticos e de menor impacto”, afirma.

O estímulo ao reaproveitamento de dados tem várias fontes. Uma delas é a preocupação crescente com a reprodutibilidade de pesquisas (ver seção Boas Práticas) e a importância de disponibilizar as informações primárias coletadas para que outros consigam verificar a precisão e a relevância dos resultados. No Brasil, desde 2013 a revista Brazilian Political Science Review, da Associação Brasileira de Ciência Política, exige que os autores de artigos cujo conteúdo utiliza métodos quantitativos disponibilizem no site da revista os dados que embasaram o trabalho e também os codebooks, dicionários que permitem a identificação das variáveis usadas na obtenção das informações. “A proposta é tentar viabilizar a replicação dos procedimentos que levaram às conclusões dos trabalhos”, diz a cientista política Marta Arretche, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e editora da revista.

A pesquisadora lembra que a ciência só se torna replicável se os dados e ferramentas usados nos experimentos, simulações e análises forem disponibilizados de forma aberta e livre. No entanto, ela destaca, é fundamental que essa massa de informações seja acompanhada de explicações sobre sua origem. “Sem dados bem documentados não é possível reproduzir o experimento original ou reusar os dados em outra pesquisa”, completa.

Desde 2014 o grupo de periódicos científicos PLOS passou a condicionar a aceitação de artigos à divulgação de seus dados brutos em repositórios públicos (ver Pesquisa FAPESP nº 218). Em revistas de genética e bioinformática, cujos trabalhos geram uma enxurrada de informações sobre sequências de DNA e proteínas, essa recomendação há tempo se tornou uma exigência. Isso permitiu às geneticistas Lygia da Veiga Pereira e Maria Vibranovski, do Instituto de Biociências da USP, explicarem como ocorre o desligamento de uma das duas cópias do cromossomo X em embriões femininos. Elas analisaram informações disponibilizadas em 2013 por pesquisadores chineses e constataram que o gene XIST, responsável por iniciar a inativação, era expresso em embriões femininos a partir do estágio de oito células (ver Pesquisa FAPESP nº 260). “Os chineses haviam feito toda a parte laboratorial. Conseguiram os embriões humanos, separaram as células, extraíram e sequenciaram o RNA, mas não olharam para a inativação do cromossomo X”, disse Lygia, que publicou o achado em setembro de 2017 na revista Scientific Reports.

044 reuso-de-dados04 265-300x224Outro caso é o do grupo do parasitologista Marcelo Ferreira e da bióloga Priscila Rodrigues, ambos do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Há algum tempo eles estudam os padrões de dispersão global dos parasitas causadores da malária. “Usamos amostras do material genético dos protozoários disponíveis no GenBank, banco de sequências de DNA e de aminoácidos do Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos Estados Unidos”, conta Priscila. Pelo menos dois artigos foram produzidos nos últimos três anos com base nessa prática: um em 2016, na Nature Genetics, destacando que o Plasmodium vivax acumulou mutações que o teriam diferenciado das cepas africanas e asiáticas depois de chegar às Américas, e outro em janeiro de 2018, na Scientific Reports, apresentando novas evidências sobre como as migrações humanas ajudaram a espalhar esses parasitas pelo continente americano.

O incentivo ao reúso de dados também provém das agências de fomento, interessadas não apenas no desafio da reprodutibilidade como em racionalizar a aplicação de recursos públicos nos projetos que financiam. “O compartilhamento de dados pode ajudar o cientista a economizar tempo e recursos e evita a duplicação de pesquisas”, destaca a engenheira eletricista Claudia Bauzer Medeiros, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora adjunta do programa eScience da FAPESP. “Estudos internacionais mostram que a prática aumenta o número de parcerias, acelera descobertas científicas e amplia a visibilidade do conhecimento produzido”, afirma.

A ideia de que pesquisas produzidas com recursos públicos devem ter seus resultados franqueados sem restrições, inclusive em relação aos dados primários coletados, também se relaciona com o conceito de ciência aberta, que envolve o acesso livre à informação e a construção colaborativa do conhecimento, observa Claudia Domingues Vargas, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela é uma das pesquisadoras envolvidas no Neuroscience Experiments System (NES), que permite livre acesso às informações primárias de estudos no campo das neurociências.

044 reuso-de-dados03 265-300x266A plataforma foi concebida no âmbito do Centro de Pesquisa, Inovação e Disseminação em Neuromatemática (NeuroMat), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP. Envolve pesquisadores de matemática, ciência da computação, estatística, neurociência, biologia, física e comunicação de universidades brasileiras e do exterior. “A proposta do NES é ser um repositório público que permita acesso aberto a um amplo conjunto de dados neurofisiológicos, clínicos e experimentais, bem como aos softwares usados na análise, processamento e geração dessas informações”, explica Claudia Vargas, que é uma das pesquisadoras principais do NeuroMat.

O compartilhamento de dados científicos avança em ritmos distintos a depender da área do conhecimento. Na astronomia, é algo corriqueiro, como observa a física Marcelle Soares-Santos, professora da Universidade Brandeis e pesquisadora no Fermi National Accelerator Laboratory, um dos mais importantes centros de física de partículas do mundo, nos Estados Unidos. “Beneficiei-me muito dessa prática no doutorado”, comenta. À época ela desenvolveu algoritmos para encontrar aglomerados de galáxias a partir de informações do Sloan Digital Sky Survey sobre 500 milhões de objetos celestes. Marcelle explica que os dados primários em astronomia são ricos e raramente explorados de forma completa. “Muitas questões em astronomia só podem ser estudadas a partir de análises de diferentes dados científicos obtidos por outros grupos de pesquisa.”

Paradoxo
O estudo publicado na PLOS ONE destaca um fato curioso relacionado à percepção sobre o reúso: os pesquisadores que mais se preocupam com a credibilidade dos dados que pretendem utilizar são os que se mostram mais dispostos a reaproveitar registros produzidos por terceiros. Já os que quase nunca reutilizam têm mais dificuldade para entender os benefícios dessa prática e avaliar a qualidade das informações disponíveis.

No estudo How and why researchers share data (and why they don’t), desenvolvido em 2014 pela editora John Wiley & Sons com quase 3 mil pesquisadores de diferentes áreas e países, verificou-se que os alemães são os mais dispostos a compartilhar dados, com o objetivo de aumentar a visibilidade e garantir a transparência de suas pesquisas. Já os chineses são menos propensos a dividir com outros informações de pesquisa, sobretudo porque isso não é um requisito para o financiamento. Os brasileiros reclamaram do trabalho extra para organizar essa massa de dados, dos custos para hospedá-la e das dificuldades para encontrar repositórios adequados.

compartilhamento-de-dados-300x218Em estudos sobre o reúso de dados científicos, pesquisadores frequentemente alegam que se sentem receosos em fornecer suas informações porque ainda querem explorá-las em novos estudos ou temem não receber os créditos pela cessão. Esses e outros temores também foram verificados no relatório Open Data: The research perspective, da editora Elsevier. Mas o mesmo estudo constatou que 73% dos entrevistados julgavam que o acesso a dados científicos de terceiros poderia beneficiar suas próprias pesquisas e que 64% deles se mostravam dispostos a compartilhar informações com outros pesquisadores.

O principal desafio, segundo Claudia Bauzer Medeiros, é promover o reúso de informações científicas, mostrando aos pesquisadores os benefícios da prática, e ao mesmo tempo agir para combater os casos de apropriação indevida de dados. Outra estratégia desejável, segundo ela, é a criação de cursos que ensinem pesquisadores e alunos a preparar dados e experimentos para compartilhamento. “Esse tipo de treinamento já é padrão em vários países do mundo, tendo em alguns casos se tornado uma exigência na formação de pesquisadores”, completa.

Renata Curty argumenta que é preciso investir em sistemas que verifiquem a qualidade dos dados disponibilizados e em recompensas para os pesquisadores que adotarem essa prática. Nos Estados Unidos já existem algumas iniciativas nesse sentido. Uma delas é a Plataforma Global de Informações sobre Biodiversidade (GBIF), que reúne quase 850 milhões de registros de espécies, 6 milhões deles oriundos do Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 263). Ao cadastrar os dados primários de suas pesquisas na GBIF, os pesquisadores podem gerar um Data Paper, um documento que pode ser publicado on-line em plataformas de acesso aberto voltadas para descrever conjuntos de informações de pesquisas consideradas valiosas. Existem publicações dedicadas a disseminar esses artigos de dados, segundo a pesquisadora da UEL, como o Biodiversity Data Journal, o Data in Brief, da Elsevier, e o Scientific Data, do grupo Nature.

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP