Estratégia radical contra a má conduta
Julho de 2018 | Pesquisa FAPESP

O governo chinês anunciou uma reforma para melhorar a qualidade da ciência do país baseada no combate radical à má conduta científica. No dia 30 de maio, o Partido Comunista e o Conselho de Estado da China divulgaram as linhas gerais das mudanças, que deverão ser detalhadas e implantadas em breve. Elas preveem, por exemplo, a criação de uma lista de revistas científicas de má qualidade – e a determinação de que artigos publicados nesses periódicos não contarão pontos em seleções para bolsas e empregos ou em processos de avaliação de agências de fomento chinesas. Outra novidade é que o Ministério da Ciência e Tecnologia assumirá a responsabilidade de apurar casos de má conduta, tarefa que era descentralizada e cabia às universidades e instituições científicas. Os pesquisadores envolvidos em escândalos terão seus nomes incluídos em um banco de dados e poderão ser privados de financiamento ou perder o emprego.

Segundo a agência oficial de notícias Xinhua, o objetivo do governo é criar um “mecanismo de integridade científica”, que ao mesmo tempo favoreça a inovação e combata com rigor casos de má conduta. Responsável por mais de 18% da produção científica mundial indexada na base Scopus, a China ultrapassou os Estados Unidos em número de artigos científicos publicados, mas também protagonizou escândalos envolvendo fraude, plágio e falsificação. Em um dos casos mais recentes, a revista Tumor Biology retratou no ano passado 107 artigos de autores chineses por manipulação da revisão por pares.

O Ministério da Ciência e Tecnologia e as agências de fomento do país vão criar padrões para definir desvios de conduta, normas para investigar acusações e punições para cada tipo de falha ética. Instituições que protegerem pesquisadores acusados poderão ser penalizadas com perda de recursos. Nicholas Steneck, especialista em integridade científica da Universidade de Michigan, em Ann Arbor, Estados Unidos, disse à revista Nature que é inédita a ideia de punir ao mesmo tempo instituições e periódicos e que a política sobre publicações pode se tornar modelo para outros países.

Também estão previstas mudanças na forma como os cientistas são avaliados. A ideia é considerar o impacto e o potencial inovador da produção de cada pesquisador, em vez de contabilizar a quantidade de artigos e valorizar aqueles divulgados em revistas de alto impacto, como se faz hoje. O químico Derek Lowe, diretor da multinacional farmacêutica Novartis, escreveu em seu blog na revista Science que a reforma chinesa, apesar de ter bons propósitos, deve enfrentar problemas de implementação. Um deles, ele observa, será a dificuldade de apontar todas as revistas de má qualidade, já que várias delas mesclam artigos bons e ruins. Ele também teme efeitos colaterais, como o uso de falsas alegações de má conduta para prejudicar pesquisadores rivais ou a perseguição a delatores honestos. “De todo modo, será algo interessante de ver”, afirmou.

Fonte: Pesquisa FAPESP

A sombra das revistas predatórias no Brasil
Agosto de 2018 | Pesquisa FAPESP

Estudo mostra quantos pesquisadores do país publicam em periódicos com práticas suspeitas

Um estudo feito por pesquisadores da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) analisou a penetração na comunidade científica do país das chamadas revistas predatórias, periódicos internacionais de acesso aberto que adotam critérios frouxos para selecionar papers, bastando que os autores paguem para vê-los publicados. Em um artigo divulgado em julho na revista Scientometrics, o grupo compilou a produção científica entre 2000 e 2015 dos brasileiros com título de doutor cadastrados na plataforma de currículos Lattes – o total foi de 2,3 milhões de publicações de 102.969 pesquisadores. Com base nessas informações, foram rastreados os artigos difundidos em periódicos suspeitos.

Um dado alentador é que tais revistas seduzem uma fração pequena de autores brasileiros – entre 0,26% e 0,49% do total de artigos publicados, dependendo dos critérios adotados. O grupo da UFRGS selecionou três parâmetros para identificar periódicos com práticas controversas. Um deles foi a menção ao título da revista em uma listagem de mais de 1,5 mil publicações suspeitas, produzida entre 2010 e 2017 pelo biblioteconomista norte-americano Jeffrey Beall, da Universidade do Colorado. Apenas 0,49% dos artigos estavam em revistas inseridas nesse índice. Tal critério, contudo, é polêmico – o próprio Beall, um crítico do acesso aberto, aboliu a lista depois de ser ameaçado com processos por editoras que se sentiam injustiçadas.

Para prevenir vieses, os pesquisadores adotaram cuidados extras. Primeiro, combinaram dois parâmetros diferentes: não bastava o periódico fazer parte da lista de Beall, mas também era necessário que estivesse ausente do Diretório de Revistas de Acesso Aberto (Doaj), que exige de seus afiliados a adoção de normas básicas de qualidade, como a existência de revisão por pares dos manuscritos. Analisando esses dois critérios, o percentual de artigos brasileiros divulgados em revistas possivelmente predatórias caiu para 0,44% do total. Por fim, associou-se um terceiro critério, que é a inexistência de avaliação do impacto da publicação por meio de indicadores de citações como o Journal Citation Reports, vinculado à base Web of Science, ou do Scientific Journal Rankings, do grupo espanhol Scimago – quanto mais precário é o periódico, menor costuma ser a chance de ser citado. As publicações que se encaixavam nas três características representaram 0,26% do total.

Embora a penetração das revistas predatórias seja restrita, o estudo apontou motivos de preocupação. Um deles é que vem crescendo o número de autores brasileiros que recorrem a esses periódicos. “Entre 2010 e 2015, triplicou o número de artigos de brasileiros em revistas listadas por Jeffrey Beall”, diz o engenheiro Denis Borenstein, especialista em pesquisa operacional aplicada, um dos autores do estudo. O dado mais delicado, porém, é que várias revistas apontadas como predatórias estavam presentes no sistema Qualis Periódicos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que classifica cerca de 30 mil publicações para avaliar a produção científica dos programas de pós-graduação do Brasil. “Em todas as áreas do conhecimento, havia revistas recomendadas pelo Qualis que se encaixam nos três critérios adotados por nós para identificar práticas predatórias. Nenhuma delas têm conceito elevado, mas o fato de valerem algo na avaliação estimula pesquisadores a submeterem artigos a elas”, explica Borenstein.

Avaliação quadrienal

A classificação do Qualis Periódicos é atualizada anualmente por comitês de especialistas de 49 áreas que são responsáveis pela avaliação quadrienal dos programas de pós-graduação brasileiros. Talita Moreira de Oliveira, coordenadora-geral de atividades de apoio à pós-graduação da Capes, explica que os membros desses comitês fazem um esforço contínuo para identificar publicações predatórias e eliminam várias delas a cada ano, mas, com a entrada constante de novos periódicos, o trabalho nunca termina. “Quando uma revista não é indexada em bases internacionais, tentamos avaliar de outras maneiras se ela tem qualidade. As comissões de áreas tiveram acesso e reavaliaram algumas revistas no Qualis entre 2013 e 2016 com base em algumas listas de possíveis veículos predatórios, mas não existe uma lista fechada”, afirma. Segundo ela, o fato de revistas suspeitas eventualmente escaparem do crivo dos comitês não significa que resultaram em uma avaliação vantajosa para quem publicou nelas.“A classificação do Qualis que tem valor é aquela do ano em que a avaliação quadrienal é feita e a mais recente foi em 2016. Já aconteceu, por exemplo, na área de zootecnia, de programas de pós-graduação terem a nota rebaixada porque tinham muitas publicações em revistas apontadas como predatórias – mas isso só foi descoberto nos momentos finais da avaliação e os artigos foram desconsiderados”, diz.

Segundo os autores, das cinco revistas suspeitas mais utilizadas por brasileiros, três são de agronomia: o American Journal of Plant Sciences, o International Journal of Food, Agriculture and Environment e o Agricultural Sciences. Também há um periódico de química, o American Journal of Analytical Chemistry, e outro de economia, o Journal of Academy of Business and Economics.

O interesse do grupo da UFRGS pelo tema surgiu há cerca de cinco anos. “Chamou minha atenção o interesse de pesquisadores que conheço por publicar em uma revista chamada African Journal of Business Management, que havia sido incluída no Journal Citation Reports, embora com fator de impacto baixo. Fui pesquisar e descobri que havia denúncias de práticas predatórias. Avisei os colegas e mandei uma carta à Capes comunicando o achado”, afirma Borenstein. A revista, que não está mais indexada em bases internacionais, é editada pela empresa nigeriana Academic Journals. Uma parceria com outro pesquisador da UFRGS, o especialista em métodos quantitativos Marcelo Perlin, permitiu coletar dados da plataforma Lattes e analisá-los.

O estudo fez outras constatações. Não se confirmou a ideia de que pesquisadores jovens e inexperientes são o público principal desses periódicos. Observou-se que, quanto mais antigo era o título de doutor, maior era a probabilidade de o autor publicar em títulos suspeitos. “A má conduta está associada a pesquisadores experientes, que possivelmente têm conhecimento das práticas levianas, mas acham que podem se beneficiar delas.”

Fonte: Pesquisa FAPESP

Uma rede para reproduzir experimentos
Maio de 2018 | Revista Pesquisa FAPESP

010 Boaspraticas 03Um grupo de pesquisadores do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai organizar nos próximos meses uma rede de laboratórios incumbida de repetir até 100 experimentos em ciências biomédicas publicados em artigos científicos brasileiros – o objetivo é verificar o quanto é possível reproduzir os resultados que foram divulgados. Batizado de Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, o projeto recebeu financiamento do Instituto Serrapilheira. O primeiro passo será selecionar cinco métodos bastante difundidos para refazer experimentos – entre os candidatos, há técnicas como o Western Blot, de detecção de proteínas, Elisa, de detecção de anticorpos, ou RT-PCR, de quantificação de RNA, além de modelos baseados em culturas de células e roedores. “Queremos escolher métodos consagrados

e fáceis de fazer, pois a etapa seguinte será convidar centros capazes de realizá-los em vários lugares do país interessados em participar da rede”, afirma o médico Olavo Amaral, coordenador do projeto. Ele espera credenciar os laboratórios participantes até o final do ano.

A escolha dos experimentos a serem replicados deverá ser feita de forma aleatória entre artigos científicos brasileiros que os utilizaram. “A intenção é selecionar pelo menos 20 experimentos relacionados a cada método e saber em que proporção dessa amostra os resultados se confirmam”, explica Amaral. Para o primeiro ano de trabalho, durante o qual serão montados os protocolos para replicar as pesquisas, o Instituto Serrapilheira vai investir R$ 145 mil. Encerrada essa etapa, o grupo da UFRJ espera obter uma nova rodada de financiamento para a realização dos testes – a estimativa é gastar cerca de R$ 1 milhão na empreitada. “O valor é pequeno diante do volume de recursos investidos por agências de fomento à pesquisa no país. É importante aperfeiçoar os mecanismos de controle de qualidade dos resultados obtidos.” Cada experimento selecionado deverá ser refeito em pelo menos três laboratórios.

Amaral observa que nem sempre a revisão por pares dos artigos científicos é suficiente para detectar falhas na metodologia ou na execução dos experimentos. “Mas ninguém sabe qual é a extensão desse problema”, afirma. “Alguns levantamentos feitos em outros países avaliando áreas específicas de pesquisa conseguiram confirmar menos da metade dos resultados anunciados em artigos.”

Disseminação desigual
Março de 2018 | Revista Pesquisa FAPESP

Reúso de informações científicas ainda é baixo e varia de acordo com a área do conhecimento

044 reuso-de-dados 265-760x1024O reúso de dados de pesquisa vem crescendo, mas ainda está longe de se consolidar no ambiente científico. A prática, que consiste em fazer estudos aproveitando dados gerados em experimentos anteriores de outros pesquisadores, dissemina-se mais efetivamente nas ciências exatas e biológicas, enquanto enfrenta resistência nas ciências sociais. Em geral, os pesquisadores que trabalham com informações obtidas por meio de modelos computacionais ou sensores remotos se sentem mais confortáveis em reaproveitar dados de terceiros. Essa é uma das conclusões de um artigo publicado na revista PLOS ONE pela cientista de dados Renata Curty, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná.

Com base nas respostas de 595 pesquisadores de diferentes disciplinas e países, ela e seus colaboradores avaliaram o grau de disseminação do reúso de dados e a percepção dos fatores que estimulam ou desencorajam a prática. Uma curiosidade é que essa análise se baseou em dados reutilizados. A fonte original foi mais de mil questionários respondidos por pesquisadores entre outubro de 2013 e março de 2014 no âmbito do Data Observation Network for Earth (DataONE), projeto da National Science Foundation (NSF).

Renata estuda a percepção acerca do reúso de informações científicas desde o doutorado na Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos. À época, ela verificou que os pesquisadores das ciências sociais enxergam consequências potencialmente prejudiciais associadas à reutilização de dados. “Muitos têm receio de violar questões éticas ou de confidencialidade estabelecidas entre os sujeitos da pesquisa e investigadores”, ela explica. Outra preocupação diz respeito ao risco de má interpretação ou uso incorreto das informações originais. A opinião dos cientistas sociais sobre reaproveitamento de dados também é fortemente influenciada pelo próprio campo de atuação, que privilegia a produção de conhecimento novo. “Trabalhos que reutilizam dados são considerados menos autênticos e de menor impacto”, afirma.

O estímulo ao reaproveitamento de dados tem várias fontes. Uma delas é a preocupação crescente com a reprodutibilidade de pesquisas (ver seção Boas Práticas) e a importância de disponibilizar as informações primárias coletadas para que outros consigam verificar a precisão e a relevância dos resultados. No Brasil, desde 2013 a revista Brazilian Political Science Review, da Associação Brasileira de Ciência Política, exige que os autores de artigos cujo conteúdo utiliza métodos quantitativos disponibilizem no site da revista os dados que embasaram o trabalho e também os codebooks, dicionários que permitem a identificação das variáveis usadas na obtenção das informações. “A proposta é tentar viabilizar a replicação dos procedimentos que levaram às conclusões dos trabalhos”, diz a cientista política Marta Arretche, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e editora da revista.

A pesquisadora lembra que a ciência só se torna replicável se os dados e ferramentas usados nos experimentos, simulações e análises forem disponibilizados de forma aberta e livre. No entanto, ela destaca, é fundamental que essa massa de informações seja acompanhada de explicações sobre sua origem. “Sem dados bem documentados não é possível reproduzir o experimento original ou reusar os dados em outra pesquisa”, completa.

Desde 2014 o grupo de periódicos científicos PLOS passou a condicionar a aceitação de artigos à divulgação de seus dados brutos em repositórios públicos (ver Pesquisa FAPESP nº 218). Em revistas de genética e bioinformática, cujos trabalhos geram uma enxurrada de informações sobre sequências de DNA e proteínas, essa recomendação há tempo se tornou uma exigência. Isso permitiu às geneticistas Lygia da Veiga Pereira e Maria Vibranovski, do Instituto de Biociências da USP, explicarem como ocorre o desligamento de uma das duas cópias do cromossomo X em embriões femininos. Elas analisaram informações disponibilizadas em 2013 por pesquisadores chineses e constataram que o gene XIST, responsável por iniciar a inativação, era expresso em embriões femininos a partir do estágio de oito células (ver Pesquisa FAPESP nº 260). “Os chineses haviam feito toda a parte laboratorial. Conseguiram os embriões humanos, separaram as células, extraíram e sequenciaram o RNA, mas não olharam para a inativação do cromossomo X”, disse Lygia, que publicou o achado em setembro de 2017 na revista Scientific Reports.

044 reuso-de-dados04 265-300x224Outro caso é o do grupo do parasitologista Marcelo Ferreira e da bióloga Priscila Rodrigues, ambos do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Há algum tempo eles estudam os padrões de dispersão global dos parasitas causadores da malária. “Usamos amostras do material genético dos protozoários disponíveis no GenBank, banco de sequências de DNA e de aminoácidos do Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos Estados Unidos”, conta Priscila. Pelo menos dois artigos foram produzidos nos últimos três anos com base nessa prática: um em 2016, na Nature Genetics, destacando que o Plasmodium vivax acumulou mutações que o teriam diferenciado das cepas africanas e asiáticas depois de chegar às Américas, e outro em janeiro de 2018, na Scientific Reports, apresentando novas evidências sobre como as migrações humanas ajudaram a espalhar esses parasitas pelo continente americano.

O incentivo ao reúso de dados também provém das agências de fomento, interessadas não apenas no desafio da reprodutibilidade como em racionalizar a aplicação de recursos públicos nos projetos que financiam. “O compartilhamento de dados pode ajudar o cientista a economizar tempo e recursos e evita a duplicação de pesquisas”, destaca a engenheira eletricista Claudia Bauzer Medeiros, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora adjunta do programa eScience da FAPESP. “Estudos internacionais mostram que a prática aumenta o número de parcerias, acelera descobertas científicas e amplia a visibilidade do conhecimento produzido”, afirma.

A ideia de que pesquisas produzidas com recursos públicos devem ter seus resultados franqueados sem restrições, inclusive em relação aos dados primários coletados, também se relaciona com o conceito de ciência aberta, que envolve o acesso livre à informação e a construção colaborativa do conhecimento, observa Claudia Domingues Vargas, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela é uma das pesquisadoras envolvidas no Neuroscience Experiments System (NES), que permite livre acesso às informações primárias de estudos no campo das neurociências.

044 reuso-de-dados03 265-300x266A plataforma foi concebida no âmbito do Centro de Pesquisa, Inovação e Disseminação em Neuromatemática (NeuroMat), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP. Envolve pesquisadores de matemática, ciência da computação, estatística, neurociência, biologia, física e comunicação de universidades brasileiras e do exterior. “A proposta do NES é ser um repositório público que permita acesso aberto a um amplo conjunto de dados neurofisiológicos, clínicos e experimentais, bem como aos softwares usados na análise, processamento e geração dessas informações”, explica Claudia Vargas, que é uma das pesquisadoras principais do NeuroMat.

O compartilhamento de dados científicos avança em ritmos distintos a depender da área do conhecimento. Na astronomia, é algo corriqueiro, como observa a física Marcelle Soares-Santos, professora da Universidade Brandeis e pesquisadora no Fermi National Accelerator Laboratory, um dos mais importantes centros de física de partículas do mundo, nos Estados Unidos. “Beneficiei-me muito dessa prática no doutorado”, comenta. À época ela desenvolveu algoritmos para encontrar aglomerados de galáxias a partir de informações do Sloan Digital Sky Survey sobre 500 milhões de objetos celestes. Marcelle explica que os dados primários em astronomia são ricos e raramente explorados de forma completa. “Muitas questões em astronomia só podem ser estudadas a partir de análises de diferentes dados científicos obtidos por outros grupos de pesquisa.”

Paradoxo
O estudo publicado na PLOS ONE destaca um fato curioso relacionado à percepção sobre o reúso: os pesquisadores que mais se preocupam com a credibilidade dos dados que pretendem utilizar são os que se mostram mais dispostos a reaproveitar registros produzidos por terceiros. Já os que quase nunca reutilizam têm mais dificuldade para entender os benefícios dessa prática e avaliar a qualidade das informações disponíveis.

No estudo How and why researchers share data (and why they don’t), desenvolvido em 2014 pela editora John Wiley & Sons com quase 3 mil pesquisadores de diferentes áreas e países, verificou-se que os alemães são os mais dispostos a compartilhar dados, com o objetivo de aumentar a visibilidade e garantir a transparência de suas pesquisas. Já os chineses são menos propensos a dividir com outros informações de pesquisa, sobretudo porque isso não é um requisito para o financiamento. Os brasileiros reclamaram do trabalho extra para organizar essa massa de dados, dos custos para hospedá-la e das dificuldades para encontrar repositórios adequados.

compartilhamento-de-dados-300x218Em estudos sobre o reúso de dados científicos, pesquisadores frequentemente alegam que se sentem receosos em fornecer suas informações porque ainda querem explorá-las em novos estudos ou temem não receber os créditos pela cessão. Esses e outros temores também foram verificados no relatório Open Data: The research perspective, da editora Elsevier. Mas o mesmo estudo constatou que 73% dos entrevistados julgavam que o acesso a dados científicos de terceiros poderia beneficiar suas próprias pesquisas e que 64% deles se mostravam dispostos a compartilhar informações com outros pesquisadores.

O principal desafio, segundo Claudia Bauzer Medeiros, é promover o reúso de informações científicas, mostrando aos pesquisadores os benefícios da prática, e ao mesmo tempo agir para combater os casos de apropriação indevida de dados. Outra estratégia desejável, segundo ela, é a criação de cursos que ensinem pesquisadores e alunos a preparar dados e experimentos para compartilhamento. “Esse tipo de treinamento já é padrão em vários países do mundo, tendo em alguns casos se tornado uma exigência na formação de pesquisadores”, completa.

Renata Curty argumenta que é preciso investir em sistemas que verifiquem a qualidade dos dados disponibilizados e em recompensas para os pesquisadores que adotarem essa prática. Nos Estados Unidos já existem algumas iniciativas nesse sentido. Uma delas é a Plataforma Global de Informações sobre Biodiversidade (GBIF), que reúne quase 850 milhões de registros de espécies, 6 milhões deles oriundos do Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 263). Ao cadastrar os dados primários de suas pesquisas na GBIF, os pesquisadores podem gerar um Data Paper, um documento que pode ser publicado on-line em plataformas de acesso aberto voltadas para descrever conjuntos de informações de pesquisas consideradas valiosas. Existem publicações dedicadas a disseminar esses artigos de dados, segundo a pesquisadora da UEL, como o Biodiversity Data Journal, o Data in Brief, da Elsevier, e o Scientific Data, do grupo Nature.

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP

Critérios de autoria preservam a integridade na comunicação científica
14 de março de 2018 | SciELO em Perspectiva

Veja o artigo completo AQUI.

Crédito a quem merece
Abril de 2018 | Pesquisa FAPESP

Especialistas propõem estratégias para garantir o reconhecimento justo de todos os que contribuíram para a elaboração de um artigo científico

008 bp ilusabre 266-300x169Um painel de especialistas e editores de periódicos, reunido pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, divulgou um conjunto de recomendações para melhorar a transparência na atribuição de autoria de artigos científicos. As orientações foram publicadas em fevereiro em um artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e sua principal novidade é a proposta de disseminar uma metodologia criada em 2014, capaz de reconhecer 14 diferentes tipos possíveis de contribuição que um indivíduo pode fazer a um paper, mesmo que a ajuda tenha sido pequena e seu responsável nem chegue a assinar o artigo. As categorias incluem escrita, coleta de dados, realização de experimentos, desenvolvimento de softwares ou algoritmos, administração do projeto, obtenção de recursos, entre outros (ver Pesquisa FAPESP nº 221). Denominado CRediT (Contributor Roles Taxonomy), esse sistema foi proposto por um consórcio de especialistas dos Estados Unidos e do Reino Unido e já começou a ser adotado por vários periódicos, como os da plataforma de revistas científicas PLOS, Cell, Neuron e American Journal of Human Genetics.

“Uma descrição mais sistemática das contribuições de autores é um pré-requisito para o crédito devido a papéis que são instrumentais para o processo científico, especialmente aqueles que frequentemente são ignorados ou desvalorizados”, escreveu em seu blog a bióloga Veronique Kiermer, editora executiva das revistas PLOS e uma das autoras do estudo. “Coletar dados, fazer curadoria, compartilhar um conjunto de informações e desenvolver uma abordagem metodológica que pode ser reutilizada por outros pesquisadores são contribuições-chave que nem sempre garantem a posição de primeiro autor, mas têm aplicações que vão além do artigo e merecem reconhecimento.”

De acordo com o trabalho, não basta difundir a taxonomia. Também é preciso garantir que as informações sobre todas as contribuições estejam disponíveis nos metadados de cada artigo, que são as descrições das informações-chave do paper capazes de orientar sua classificação. Complementarmente, sugere-se combinar essa estratégia ao uso do identificador Orcid (sigla para Open Researcher and Contributor ID), uma assinatura digital e individual de 16 números que permite distinguir a produção científica de cada pesquisador, sem risco de confundi-lo com um homônimo (ver Pesquisa FAPESP nº 238). A associação do CRediT com o Orcid, de acordo com o grupo, ajudaria a recuperar de forma precisa e confiável o conjunto de contribuições de pesquisadores a publicações científicas, mesmo que eles não tenham sido incluídos no rol de autores. Essa combinação, contudo, requer novos desenvolvimentos, pois os dados da taxonomia do CRediT ainda não são transferíveis para os registros do Orcid. De acordo com o painel de especialistas, agências de fomento poderiam ajudar, exigindo ou estimulando o uso desses métodos nos projetos que financiam.

O trabalho é resultado de um workshop promovido pela Academia Nacional de Ciências em fevereiro de 2017 e tem como autora principal a geofísica Marcia McNutt, atual presidente da Academia e ex-editora da revista Science. As recomendações não se limitam à incorporação das metodologias. Segundo o texto, todas as revistas científicas deveriam adotar uma declaração padrão definindo os tipos de contribuição que qualificam um indivíduo a assinar um artigo (concepção e desenho do trabalho; coleta, análise e interpretação dos dados; criação dos softwares utilizados no estudo; entre outros). Essa declaração também deve estipular que todos os autores aprovaram o texto submetido, concordaram com a participação que lhes foi atribuída e asseguraram que foram resolvidas eventuais questões relacionadas à integridade do trabalho detectadas antes da publicação, mesmo que não digam respeito à sua participação individual.

Um alvo preferencial das recomendações é a figura do autor correspondente, aquele que assume a responsabilidade global sobre o artigo e se apresenta como interlocutor para a revista. Segundo as sugestões, deve fazer parte das obrigações do autor correspondente garantir que todos os autores aprovem o texto submetido e tenham acesso a dados registrados, análises e referências da literatura utilizados na pesquisa. Mas os editores não devem se contentar com isso. No caso da atribuição de autoria, devem eles próprios contatar todos os indivíduos que assinaram um artigo e assegurar que eles reconheçam o tipo de participação que lhes foi atribuída.

Para desestimular o que o trabalho chama de “autoria fantasma”, define-se como obrigação do autor correspondente informar se o texto foi escrito com auxílio de algum profissional ou escritório de redação científica – se a participação de um ghost writer tiver sido decisiva, sugere-se adicioná-lo à lista de autores. A preocupação do painel, contudo, é com conflitos de interesses. Se uma empresa ou organização com interesse na divulgação dos dados ajudou a redigir o artigo, isso precisa ser declarado (ver quadro). Caso o nome de algum autor tenha sido suprimido em versões anteriores do manuscrito, isso também deve ser comunicado para prevenir a existência de “autores órfãos”, aqueles que contribuíram, mas foram esquecidos na elaboração do artigo.

Instituições de pesquisa e ensino superior devem se juntar ao esforço, discutindo políticas sobre atribuição de autoria e garantindo que todos os seus pesquisadores sigam os critérios predefinidos. A Academia criou um site, intitulado “Transparência na contribuição de autores na ciência”, em que informa quais periódicos já adotaram as recomendações. Os publicados pelo grupo Nature e pelo Public Library of Science (PLOS) estão entre os que seguem esses critérios.

Fonte:  Pesquisa FAPESP