Uma rede para reproduzir experimentos
Maio de 2018 | Revista Pesquisa FAPESP

010 Boaspraticas 03Um grupo de pesquisadores do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai organizar nos próximos meses uma rede de laboratórios incumbida de repetir até 100 experimentos em ciências biomédicas publicados em artigos científicos brasileiros – o objetivo é verificar o quanto é possível reproduzir os resultados que foram divulgados. Batizado de Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, o projeto recebeu financiamento do Instituto Serrapilheira. O primeiro passo será selecionar cinco métodos bastante difundidos para refazer experimentos – entre os candidatos, há técnicas como o Western Blot, de detecção de proteínas, Elisa, de detecção de anticorpos, ou RT-PCR, de quantificação de RNA, além de modelos baseados em culturas de células e roedores. “Queremos escolher métodos consagrados

e fáceis de fazer, pois a etapa seguinte será convidar centros capazes de realizá-los em vários lugares do país interessados em participar da rede”, afirma o médico Olavo Amaral, coordenador do projeto. Ele espera credenciar os laboratórios participantes até o final do ano.

A escolha dos experimentos a serem replicados deverá ser feita de forma aleatória entre artigos científicos brasileiros que os utilizaram. “A intenção é selecionar pelo menos 20 experimentos relacionados a cada método e saber em que proporção dessa amostra os resultados se confirmam”, explica Amaral. Para o primeiro ano de trabalho, durante o qual serão montados os protocolos para replicar as pesquisas, o Instituto Serrapilheira vai investir R$ 145 mil. Encerrada essa etapa, o grupo da UFRJ espera obter uma nova rodada de financiamento para a realização dos testes – a estimativa é gastar cerca de R$ 1 milhão na empreitada. “O valor é pequeno diante do volume de recursos investidos por agências de fomento à pesquisa no país. É importante aperfeiçoar os mecanismos de controle de qualidade dos resultados obtidos.” Cada experimento selecionado deverá ser refeito em pelo menos três laboratórios.

Amaral observa que nem sempre a revisão por pares dos artigos científicos é suficiente para detectar falhas na metodologia ou na execução dos experimentos. “Mas ninguém sabe qual é a extensão desse problema”, afirma. “Alguns levantamentos feitos em outros países avaliando áreas específicas de pesquisa conseguiram confirmar menos da metade dos resultados anunciados em artigos.”

Disseminação desigual
Março de 2018 | Revista Pesquisa FAPESP

Reúso de informações científicas ainda é baixo e varia de acordo com a área do conhecimento

044 reuso-de-dados 265-760x1024O reúso de dados de pesquisa vem crescendo, mas ainda está longe de se consolidar no ambiente científico. A prática, que consiste em fazer estudos aproveitando dados gerados em experimentos anteriores de outros pesquisadores, dissemina-se mais efetivamente nas ciências exatas e biológicas, enquanto enfrenta resistência nas ciências sociais. Em geral, os pesquisadores que trabalham com informações obtidas por meio de modelos computacionais ou sensores remotos se sentem mais confortáveis em reaproveitar dados de terceiros. Essa é uma das conclusões de um artigo publicado na revista PLOS ONE pela cientista de dados Renata Curty, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná.

Com base nas respostas de 595 pesquisadores de diferentes disciplinas e países, ela e seus colaboradores avaliaram o grau de disseminação do reúso de dados e a percepção dos fatores que estimulam ou desencorajam a prática. Uma curiosidade é que essa análise se baseou em dados reutilizados. A fonte original foi mais de mil questionários respondidos por pesquisadores entre outubro de 2013 e março de 2014 no âmbito do Data Observation Network for Earth (DataONE), projeto da National Science Foundation (NSF).

Renata estuda a percepção acerca do reúso de informações científicas desde o doutorado na Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos. À época, ela verificou que os pesquisadores das ciências sociais enxergam consequências potencialmente prejudiciais associadas à reutilização de dados. “Muitos têm receio de violar questões éticas ou de confidencialidade estabelecidas entre os sujeitos da pesquisa e investigadores”, ela explica. Outra preocupação diz respeito ao risco de má interpretação ou uso incorreto das informações originais. A opinião dos cientistas sociais sobre reaproveitamento de dados também é fortemente influenciada pelo próprio campo de atuação, que privilegia a produção de conhecimento novo. “Trabalhos que reutilizam dados são considerados menos autênticos e de menor impacto”, afirma.

O estímulo ao reaproveitamento de dados tem várias fontes. Uma delas é a preocupação crescente com a reprodutibilidade de pesquisas (ver seção Boas Práticas) e a importância de disponibilizar as informações primárias coletadas para que outros consigam verificar a precisão e a relevância dos resultados. No Brasil, desde 2013 a revista Brazilian Political Science Review, da Associação Brasileira de Ciência Política, exige que os autores de artigos cujo conteúdo utiliza métodos quantitativos disponibilizem no site da revista os dados que embasaram o trabalho e também os codebooks, dicionários que permitem a identificação das variáveis usadas na obtenção das informações. “A proposta é tentar viabilizar a replicação dos procedimentos que levaram às conclusões dos trabalhos”, diz a cientista política Marta Arretche, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e editora da revista.

A pesquisadora lembra que a ciência só se torna replicável se os dados e ferramentas usados nos experimentos, simulações e análises forem disponibilizados de forma aberta e livre. No entanto, ela destaca, é fundamental que essa massa de informações seja acompanhada de explicações sobre sua origem. “Sem dados bem documentados não é possível reproduzir o experimento original ou reusar os dados em outra pesquisa”, completa.

Desde 2014 o grupo de periódicos científicos PLOS passou a condicionar a aceitação de artigos à divulgação de seus dados brutos em repositórios públicos (ver Pesquisa FAPESP nº 218). Em revistas de genética e bioinformática, cujos trabalhos geram uma enxurrada de informações sobre sequências de DNA e proteínas, essa recomendação há tempo se tornou uma exigência. Isso permitiu às geneticistas Lygia da Veiga Pereira e Maria Vibranovski, do Instituto de Biociências da USP, explicarem como ocorre o desligamento de uma das duas cópias do cromossomo X em embriões femininos. Elas analisaram informações disponibilizadas em 2013 por pesquisadores chineses e constataram que o gene XIST, responsável por iniciar a inativação, era expresso em embriões femininos a partir do estágio de oito células (ver Pesquisa FAPESP nº 260). “Os chineses haviam feito toda a parte laboratorial. Conseguiram os embriões humanos, separaram as células, extraíram e sequenciaram o RNA, mas não olharam para a inativação do cromossomo X”, disse Lygia, que publicou o achado em setembro de 2017 na revista Scientific Reports.

044 reuso-de-dados04 265-300x224Outro caso é o do grupo do parasitologista Marcelo Ferreira e da bióloga Priscila Rodrigues, ambos do Instituto de Ciências Biomédicas da USP. Há algum tempo eles estudam os padrões de dispersão global dos parasitas causadores da malária. “Usamos amostras do material genético dos protozoários disponíveis no GenBank, banco de sequências de DNA e de aminoácidos do Centro Nacional de Informação Biotecnológica dos Estados Unidos”, conta Priscila. Pelo menos dois artigos foram produzidos nos últimos três anos com base nessa prática: um em 2016, na Nature Genetics, destacando que o Plasmodium vivax acumulou mutações que o teriam diferenciado das cepas africanas e asiáticas depois de chegar às Américas, e outro em janeiro de 2018, na Scientific Reports, apresentando novas evidências sobre como as migrações humanas ajudaram a espalhar esses parasitas pelo continente americano.

O incentivo ao reúso de dados também provém das agências de fomento, interessadas não apenas no desafio da reprodutibilidade como em racionalizar a aplicação de recursos públicos nos projetos que financiam. “O compartilhamento de dados pode ajudar o cientista a economizar tempo e recursos e evita a duplicação de pesquisas”, destaca a engenheira eletricista Claudia Bauzer Medeiros, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora adjunta do programa eScience da FAPESP. “Estudos internacionais mostram que a prática aumenta o número de parcerias, acelera descobertas científicas e amplia a visibilidade do conhecimento produzido”, afirma.

A ideia de que pesquisas produzidas com recursos públicos devem ter seus resultados franqueados sem restrições, inclusive em relação aos dados primários coletados, também se relaciona com o conceito de ciência aberta, que envolve o acesso livre à informação e a construção colaborativa do conhecimento, observa Claudia Domingues Vargas, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela é uma das pesquisadoras envolvidas no Neuroscience Experiments System (NES), que permite livre acesso às informações primárias de estudos no campo das neurociências.

044 reuso-de-dados03 265-300x266A plataforma foi concebida no âmbito do Centro de Pesquisa, Inovação e Disseminação em Neuromatemática (NeuroMat), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP. Envolve pesquisadores de matemática, ciência da computação, estatística, neurociência, biologia, física e comunicação de universidades brasileiras e do exterior. “A proposta do NES é ser um repositório público que permita acesso aberto a um amplo conjunto de dados neurofisiológicos, clínicos e experimentais, bem como aos softwares usados na análise, processamento e geração dessas informações”, explica Claudia Vargas, que é uma das pesquisadoras principais do NeuroMat.

O compartilhamento de dados científicos avança em ritmos distintos a depender da área do conhecimento. Na astronomia, é algo corriqueiro, como observa a física Marcelle Soares-Santos, professora da Universidade Brandeis e pesquisadora no Fermi National Accelerator Laboratory, um dos mais importantes centros de física de partículas do mundo, nos Estados Unidos. “Beneficiei-me muito dessa prática no doutorado”, comenta. À época ela desenvolveu algoritmos para encontrar aglomerados de galáxias a partir de informações do Sloan Digital Sky Survey sobre 500 milhões de objetos celestes. Marcelle explica que os dados primários em astronomia são ricos e raramente explorados de forma completa. “Muitas questões em astronomia só podem ser estudadas a partir de análises de diferentes dados científicos obtidos por outros grupos de pesquisa.”

Paradoxo
O estudo publicado na PLOS ONE destaca um fato curioso relacionado à percepção sobre o reúso: os pesquisadores que mais se preocupam com a credibilidade dos dados que pretendem utilizar são os que se mostram mais dispostos a reaproveitar registros produzidos por terceiros. Já os que quase nunca reutilizam têm mais dificuldade para entender os benefícios dessa prática e avaliar a qualidade das informações disponíveis.

No estudo How and why researchers share data (and why they don’t), desenvolvido em 2014 pela editora John Wiley & Sons com quase 3 mil pesquisadores de diferentes áreas e países, verificou-se que os alemães são os mais dispostos a compartilhar dados, com o objetivo de aumentar a visibilidade e garantir a transparência de suas pesquisas. Já os chineses são menos propensos a dividir com outros informações de pesquisa, sobretudo porque isso não é um requisito para o financiamento. Os brasileiros reclamaram do trabalho extra para organizar essa massa de dados, dos custos para hospedá-la e das dificuldades para encontrar repositórios adequados.

compartilhamento-de-dados-300x218Em estudos sobre o reúso de dados científicos, pesquisadores frequentemente alegam que se sentem receosos em fornecer suas informações porque ainda querem explorá-las em novos estudos ou temem não receber os créditos pela cessão. Esses e outros temores também foram verificados no relatório Open Data: The research perspective, da editora Elsevier. Mas o mesmo estudo constatou que 73% dos entrevistados julgavam que o acesso a dados científicos de terceiros poderia beneficiar suas próprias pesquisas e que 64% deles se mostravam dispostos a compartilhar informações com outros pesquisadores.

O principal desafio, segundo Claudia Bauzer Medeiros, é promover o reúso de informações científicas, mostrando aos pesquisadores os benefícios da prática, e ao mesmo tempo agir para combater os casos de apropriação indevida de dados. Outra estratégia desejável, segundo ela, é a criação de cursos que ensinem pesquisadores e alunos a preparar dados e experimentos para compartilhamento. “Esse tipo de treinamento já é padrão em vários países do mundo, tendo em alguns casos se tornado uma exigência na formação de pesquisadores”, completa.

Renata Curty argumenta que é preciso investir em sistemas que verifiquem a qualidade dos dados disponibilizados e em recompensas para os pesquisadores que adotarem essa prática. Nos Estados Unidos já existem algumas iniciativas nesse sentido. Uma delas é a Plataforma Global de Informações sobre Biodiversidade (GBIF), que reúne quase 850 milhões de registros de espécies, 6 milhões deles oriundos do Brasil (ver Pesquisa FAPESP nº 263). Ao cadastrar os dados primários de suas pesquisas na GBIF, os pesquisadores podem gerar um Data Paper, um documento que pode ser publicado on-line em plataformas de acesso aberto voltadas para descrever conjuntos de informações de pesquisas consideradas valiosas. Existem publicações dedicadas a disseminar esses artigos de dados, segundo a pesquisadora da UEL, como o Biodiversity Data Journal, o Data in Brief, da Elsevier, e o Scientific Data, do grupo Nature.

Fonte: Revista Pesquisa FAPESP

Critérios de autoria preservam a integridade na comunicação científica
14 de março de 2018 | SciELO em Perspectiva

Veja o artigo completo AQUI.

Crédito a quem merece
Abril de 2018 | Pesquisa FAPESP

Especialistas propõem estratégias para garantir o reconhecimento justo de todos os que contribuíram para a elaboração de um artigo científico

008 bp ilusabre 266-300x169Um painel de especialistas e editores de periódicos, reunido pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, divulgou um conjunto de recomendações para melhorar a transparência na atribuição de autoria de artigos científicos. As orientações foram publicadas em fevereiro em um artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e sua principal novidade é a proposta de disseminar uma metodologia criada em 2014, capaz de reconhecer 14 diferentes tipos possíveis de contribuição que um indivíduo pode fazer a um paper, mesmo que a ajuda tenha sido pequena e seu responsável nem chegue a assinar o artigo. As categorias incluem escrita, coleta de dados, realização de experimentos, desenvolvimento de softwares ou algoritmos, administração do projeto, obtenção de recursos, entre outros (ver Pesquisa FAPESP nº 221). Denominado CRediT (Contributor Roles Taxonomy), esse sistema foi proposto por um consórcio de especialistas dos Estados Unidos e do Reino Unido e já começou a ser adotado por vários periódicos, como os da plataforma de revistas científicas PLOS, Cell, Neuron e American Journal of Human Genetics.

“Uma descrição mais sistemática das contribuições de autores é um pré-requisito para o crédito devido a papéis que são instrumentais para o processo científico, especialmente aqueles que frequentemente são ignorados ou desvalorizados”, escreveu em seu blog a bióloga Veronique Kiermer, editora executiva das revistas PLOS e uma das autoras do estudo. “Coletar dados, fazer curadoria, compartilhar um conjunto de informações e desenvolver uma abordagem metodológica que pode ser reutilizada por outros pesquisadores são contribuições-chave que nem sempre garantem a posição de primeiro autor, mas têm aplicações que vão além do artigo e merecem reconhecimento.”

De acordo com o trabalho, não basta difundir a taxonomia. Também é preciso garantir que as informações sobre todas as contribuições estejam disponíveis nos metadados de cada artigo, que são as descrições das informações-chave do paper capazes de orientar sua classificação. Complementarmente, sugere-se combinar essa estratégia ao uso do identificador Orcid (sigla para Open Researcher and Contributor ID), uma assinatura digital e individual de 16 números que permite distinguir a produção científica de cada pesquisador, sem risco de confundi-lo com um homônimo (ver Pesquisa FAPESP nº 238). A associação do CRediT com o Orcid, de acordo com o grupo, ajudaria a recuperar de forma precisa e confiável o conjunto de contribuições de pesquisadores a publicações científicas, mesmo que eles não tenham sido incluídos no rol de autores. Essa combinação, contudo, requer novos desenvolvimentos, pois os dados da taxonomia do CRediT ainda não são transferíveis para os registros do Orcid. De acordo com o painel de especialistas, agências de fomento poderiam ajudar, exigindo ou estimulando o uso desses métodos nos projetos que financiam.

O trabalho é resultado de um workshop promovido pela Academia Nacional de Ciências em fevereiro de 2017 e tem como autora principal a geofísica Marcia McNutt, atual presidente da Academia e ex-editora da revista Science. As recomendações não se limitam à incorporação das metodologias. Segundo o texto, todas as revistas científicas deveriam adotar uma declaração padrão definindo os tipos de contribuição que qualificam um indivíduo a assinar um artigo (concepção e desenho do trabalho; coleta, análise e interpretação dos dados; criação dos softwares utilizados no estudo; entre outros). Essa declaração também deve estipular que todos os autores aprovaram o texto submetido, concordaram com a participação que lhes foi atribuída e asseguraram que foram resolvidas eventuais questões relacionadas à integridade do trabalho detectadas antes da publicação, mesmo que não digam respeito à sua participação individual.

Um alvo preferencial das recomendações é a figura do autor correspondente, aquele que assume a responsabilidade global sobre o artigo e se apresenta como interlocutor para a revista. Segundo as sugestões, deve fazer parte das obrigações do autor correspondente garantir que todos os autores aprovem o texto submetido e tenham acesso a dados registrados, análises e referências da literatura utilizados na pesquisa. Mas os editores não devem se contentar com isso. No caso da atribuição de autoria, devem eles próprios contatar todos os indivíduos que assinaram um artigo e assegurar que eles reconheçam o tipo de participação que lhes foi atribuída.

Para desestimular o que o trabalho chama de “autoria fantasma”, define-se como obrigação do autor correspondente informar se o texto foi escrito com auxílio de algum profissional ou escritório de redação científica – se a participação de um ghost writer tiver sido decisiva, sugere-se adicioná-lo à lista de autores. A preocupação do painel, contudo, é com conflitos de interesses. Se uma empresa ou organização com interesse na divulgação dos dados ajudou a redigir o artigo, isso precisa ser declarado (ver quadro). Caso o nome de algum autor tenha sido suprimido em versões anteriores do manuscrito, isso também deve ser comunicado para prevenir a existência de “autores órfãos”, aqueles que contribuíram, mas foram esquecidos na elaboração do artigo.

Instituições de pesquisa e ensino superior devem se juntar ao esforço, discutindo políticas sobre atribuição de autoria e garantindo que todos os seus pesquisadores sigam os critérios predefinidos. A Academia criou um site, intitulado “Transparência na contribuição de autores na ciência”, em que informa quais periódicos já adotaram as recomendações. Os publicados pelo grupo Nature e pelo Public Library of Science (PLOS) estão entre os que seguem esses critérios.

Fonte:  Pesquisa FAPESP

Para prevenir novas crises
Março de 2018 | Pesquisa FAPESP

Documento propõe mudanças em práticas de pesquisa a fim de reduzir a publicação de artigos cujos resultados ninguém consegue repetir

A Real Academia de Artes e Ciências da Holanda lançou um documento propondo mudanças em práticas de pesquisa a fim de enfrentar o que se convencionou chamar de “crise da reprodutibilidade” – uma sucessão de casos de artigos científicos que caíram em descrédito por seus resultados não terem sido confirmados em experimentos subsequentes. As recomendações do relatório divulgado em janeiro, intitulado Estudos de replicação – Melhorando a reprodutibilidade nas ciências empíricas, buscam aumentar o rigor com que o trabalho científico é realizado e apoiar pesquisadores interessados em verificar resultados obtidos por colegas. Uma das propostas apresentadas consiste em estimular o financiamento de estudos voltados para ratificar outros estudos, seguindo o exemplo da Organização Holandesa para Pesquisa Científica (NWO), que destinou no ano passado € 3 milhões a um programa-piloto para projetos dessa natureza. As sugestões também incluem reforçar o treinamento de cientistas e estudantes em tópicos como desenho de experimentos e análise estatística, e incentivar periódicos científicos a publicar pesquisas que não confirmaram as hipóteses testadas ou então chegaram a resultados nulos.

“O conhecimento só avança se os pesquisadores puderem confiar nos resultados de estudos feitos anteriormente”, escreveu, no prefácio do relatório, a presidente da Real Academia, José van Dijck, pesquisadora de mídia e cultura da Universidade de Utrecht. Na avaliação da entidade, produzir dados fidedignos é essencial para evitar o desperdício de recursos na pesquisa e garantir a confiança do público na ciência. “O relatório conclui que estudos para reproduzir outros estudos devem ser conduzidos de forma mais frequente e sistemática, o que exige um esforço conjunto de agências de fomento, pesquisadores, periódicos e instituições científicas”, afirmou Van Dijck.

O panorama da “crise da reprodutibilidade” apresentado no relatório mostra a relevância do problema. À procura de novos medicamentos contra o câncer, a empresa farmacêutica Amgen tentou confirmar os achados de 53 estudos pré-clínicos publicados que pareciam ter grande potencial. Apenas 11% dos resultados foram corroborados. A Bayer fez um esforço semelhante para tentar validar dados sobre alvos potenciais de novos remédios, obtidos por 67 projetos de pesquisa, e só teve sucesso em 25% dos casos. Uma colaboração internacional para investigar estudos de psicologia experimental, área que foi palco de escândalos envolvendo manipulações e fraudes, só conseguiu ratificar resultados obtidos em 36 dos 100 artigos avaliados. No final do ano passado, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharias e Medicina dos Estados Unidos criaram um comitê de 15 membros para estudar estratégias que previnam a publicação de estudos não confirmáveis – as conclusões devem ser divulgadas em 2019.

Embora a crise se manifeste de modo aberto em medicina, ciências da vida e psicologia, o documento propõe que as demais áreas investiguem a extensão do problema em suas comunidades. “Quando observamos o conhecimento existente sobre causas da irreprodutibilidade, fica claro que muitas delas estão presentes em todas as disciplinas”, disse à revista Science Johan Mackenbach, pesquisador da área de saúde pública do Centro Médico Erasmus, em Roterdã, chefe do painel que organizou o relatório. Ele se refere a causas genéricas apontadas pelo documento, como a pressão para que pesquisadores publiquem novidades ou achados de impacto da forma mais rápida possível, caso contrário ficam em desvantagem na competição por financiamento e oportunidades de trabalho.

O relatório enumera 20 diferentes razões para uma pesquisa chegar a resultados não confirmáveis. A maioria está relacionada a questões metodológicas, como falhas no controle de vieses, conclusões baseadas em amostras restritas ou falta de rigor estatístico na interpretação de dados. Na origem do problema, também há vícios na forma de reportar resultados, como selecionar dados favoráveis à hipótese da pesquisa, omitindo os
negativos, ou modificar a proposta original de modo a adaptá-la às conclusões obtidas.

Fraudes são o jeito mais extremo de gerar resultados inválidos, mas também existem ameaças à reprodutibilidade que são parte natural da atividade científica, como falhas humanas, erros técnicos inesperados ou mudanças não detectadas nas condições de amostras. Nem todos os estudos não ratificados estão equivocados. Há situações em que não é possível alcançar o resultado obtido porque o autor da pesquisa deixou de informar detalhes do experimento essenciais para sua replicação. Para evitar essas situações, diz o relatório, periódicos e agências de fomento devem exigir que pesquisadores disponibilizem em repositórios públicos seus dados brutos de pesquisa e informações sobre as metodologias que adotaram.

Há propostas de caráter prático para prevenir desvios, como determinar que o pesquisador, ao propor seu projeto, registre antecipadamente e de forma transparente sua hipótese, o protocolo de pesquisa e o plano de análise a serem adotados. Esse tipo de precaução já é exigido por agências de fomento, mas vem sendo aprimorado. Em uma iniciativa articulada pela Royal Society, do Reino Unido, varios periódicos já publicam sistematicamente os chamados relatórios registrados, um tipo de paper que apresenta os métodos e planos de análise de uma pesquisa ainda não iniciada, mas que foram avaliados por pares. Mais tarde,
as revistas publicam os resultados obtidos, mesmo que sejam nulos.

O relatório é explícito sobre a importância de divulgar estudos com resultados nulos. Propõe que agências de fomento incentivem os pesquisadores a reportar tais conclusões e as revistas a publicá-las. “Instituições de pesquisa, agências de fomento e periódicos devem oferecer aos pesquisadores incentivos para a condução de estudos rigorosos e a produção de resultados de pesquisa reproduzíveis, em vez de recompensá-los principalmente por publicações de ‘alto impacto’, estudos ‘inovadores’ e afirmações infladas”, afirma o documento.

Fonte: Pesquisa FAPESP