Inovação e empreendedorismo são exigências para ICTs

Com a sanção do Marco Legal da CT&I, os núcleos de inovação tecnológica passam a atuar como conselheiros das políticas de inovação das instituições de pesquisa. E, apesar de 96% deles estarem distantes das novas exigências legais, exemplos bem sucedidos indicam como desenvolver esse perfil empreendedor e inovador

O projeto de lei da Câmara dos Deputados que resultou no Marco Legal, sancionado no dia 11 de janeiro, define regras e medidas que reforçam a necessidade das instituições de ciência e tecnologia (ICTs) estabelecerem e reforçarem suas políticas de inovação. Nesse novo contexto legal, os Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs) passam a atuar como um conselheiro das políticas de inovação dos ICTs, ganhando definições mais detalhadas e claras do que as definidas pela Lei de Inovação de 2004. Porém, segundo o diretor do Núcleo de Inovação Tecnológica da Unifesp (NIT/Unifesp), Jair Ribeiro Chagas, a grande maioria desses núcleos ainda está muito longe do que a nova lei exige: 96% não têm orçamento, nem estrutura para desempenhar essa função. “Mas agora está na lei: negociar é função da universidade”, aponta.

Bons modelos de como desenvolver esse perfil empreendedor e inovador, no entanto, existem. É o caso da Agência de Inovação da Unicamp (Inova) ou o NIT/Unifesp, no setor público, e a nova iniciativa das Universidades Presbiterianas Mackenzie, que lançou em março um centro de pesquisa em grafeno (MackGraphe), cujo objetivo principal é estabelecer parcerias com a indústria.

Para o diretor do NIT-Unifesp, além de uma legislação, para se ter uma universidade empreendedora, e, ao mesmo tempo, uma indústria inovadora, é preciso que existam políticas de inovação bem implementadas, em todos os níveis. “Regras claras, segurança jurídica, educação para o empreendedorismo e inovação, fluxos bem definidos sem burocracia, investimento sem descontinuidade, valorização social do empreendedorismo e inovação, estímulos fiscais com responsabilidade, prestação de contas à sociedade, agenda comum entre os dois tipos de instituições que garanta a não ingerência recíproca”, elenca.

Criado em 2007, o NIT/Unifesp trabalha para promover o contato com empresas, para estabelecer parcerias e convênios, além de participar das instâncias representativas como Forte, Anprotec, Anpei e Redes de inovação para coesão e força política. De acordo com Chagas, convencer o público interno de que vale a pena tratar algumas criações científicas como inovações e não apenas protegê-las é um desafio, porém, transferir essas pesquisas para os setores que podem gerar um produto, sejam privados ou públicos, é talvez o mais difícil.

Isso porque, o caminho do laboratório à indústria é ainda uma travessia tortuosa. “Os trâmites burocráticos são imensos, as instâncias de decisão múltiplas, o processo demorado, lento, burocrático e consome muito tempo”, diz.

 

Agência de Inovação

Em algumas universidades, os NITs se desenvolveram de tal forma que se tornaram agências de inovação, como a Inova da Unicamp, criada em 2003. Hoje, a agência possui 286 empresas ativas registradas em sua rede de empresas filhas, que, juntas, tiveram um faturamento de mais de R$3 bilhões em 2015 – em 2014, foram R$2bi. O número de empregos gerados nelas aumentou de 17 mil em 2014 para 19.200 em 2015. “Por que com a crise essas empresas crescem? Porque elas usam tecnologias de alto impacto, fazem parte de empresas de classe mundial. Elas cresceram em época de crise porque exportam – se o dólar sobe, o faturamento aumenta”, argumenta o diretor da Inova, Milton Mori.

A agência conta um grupo no setor de propriedade intelectual que atua na busca de invenções nos laboratórios da Universidade. “Temos um líder em cada unidade de ensino e pesquisa. Aos poucos, chegamos perto de todos os alunos”, comenta.

Além disso, eles também possuem uma frente de prospecção de empresas interessadas em investir e desenvolver as tecnologias desenvolvidas na Universidade. “Temos um portfólio de patentes alto – estamos chegando a 1 mil patentes depositadas. Mas, dessas patentes, apenas 12% são licenciadas. Isso mostra que está faltando alguma coisa”, comenta Mori.

Segundo ele, a estrutura do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) é ainda muito fraca – com um volume de quase mil patentes por examinador e um tempo de cerca de 12 anos para liberar uma patente. Para driblar isso, Mori conta que a solução da Inova é buscar fechar contratos com as empresas, antes mesmo de a patente ser concedida. “Nós depositamos e fazemos os contratos, e os royalties vêm através deles. Isso dá certo com empresas grandes. Mas prejudica as empresas pequenas, que acabam não cumprindo com o contrato”, lamenta.

Outro problema que o diretor da Agência ressalta é a cultura do empresário local, com o complexo dilema entre faturar dinheiro no curto prazo versus gerar alto valor no longo prazo. “Eles não entendem que a proximidade com a universidade pode agregar valor a um produto, a um processo ou a um serviço”, argumenta.

 

Iniciativa privada

Com um investimento de R$100 milhões, a Universidade Presbiteriana Mackenzie lançou, no dia 2 de março, o MackGraphe, o primeiro Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno, Nanomateriais e Nanotecnologias na América Latina. O grafeno é um material bidimensional – o mais fino do mundo -, derivado do carbono, com capacidade de ser 200 vezes mais forte que o aço, mas incrivelmente maleável, e um excelente condutor de energia e calor, além de ser uma barreira tão eficiente que nem o gás hélio o atravessa.

Ele foi teorizado há décadas, mas só foi isolado e caracterizado em 2004, pelos físicos Andre Geim e Konstantin Novoselov que ganharam um Nobel em 2010 pelo estudo. Geim, inclusive, participou da inauguração do centro brasileiro.

Eunézio Antônio Thoroh de Souza, coordenador do MackGraphe, conta que a ideia do laboratório de pesquisas em grafeno no Brasil, em uma universidade não pública, surgiu em 2011, por sugestão do diretor do Centro de Pesquisas Avançadas em Materiais 2D da National University of Singapore (NUS) – um dos maiores do mundo – o brasileiro Antônio Hélio de Castro Neto.

O centro foi construído com apoio da Fapesp, BNDES e do CNPq e teve um investimento de R$100 milhões. Segundo Thoroh, o objetivo do empreendimento é transformar pesquisa básica em inovação. “Minhas experiências passadas me mostraram que se nós não fizermos uma aliança muito forte com o setor produtivo, vamos sempre morrer naquele vale da morte que é o desenvolvimento. É como atravessar uma ponte – precisamos de um grupo que leva até um lado e, do outro, um que conduz”, comenta.

Entender as diferenças nas duas áreas – da ciência e da empresa, e buscar soluções para as necessidades de ambos os lados é fundamental para que essa travessia aconteça. “Os cientistas querem o tempo para desenvolver seus estudos. Por outro lado, os empresários querem uma resposta rápida. É preciso ter um mediador para administrar as angústias dos dois lados”, explica.

Ele observa, no entanto, que, instituições não públicas sem fins lucrativos (confessionais) – como Mackenzie, a PUC – têm um mecanismo interno mais rápido do que as universidades públicas. Para se ter uma ideia, apenas quatro anos após o projeto do MackGraphe ser aprovado pela Fapesp, em 2012, a Universidade foi capaz de inaugurar o prédio do laboratório – uma estrutura de 9 andares com uma área total de 4 mil m2 -, com 15 professores-pesquisadores contratados – nacionais e internacionais – e mais de 30 projetos em andamento. “O projeto começou oficialmente em 2013 e já somos um centro internacional, com pesquisadores do México, da Irlanda e da Colômbia, entre outros”.

 

Apoio e oportunidades

“O País, mesmo em um ambiente desafiador de baixo crescimento, tem, diante de si, um número não desprezível de oportunidades que, se bem exploradas, poderão ancorar o seu desenvolvimento e levá-lo a um patamar mais elevado em um futuro não muito distante”, afirma João Carlos Ferraz, diretor de Planejamento do BNDES.

Segundo ele, a economia brasileira dispõe de fronteiras viáveis de expansão, capazes de gerar de oportunidades de desenvolvimento produtivo, tecnológico e científico para as quais o Banco disponibiliza diferentes mecanismos de apoio. “Como espaço de interação entre universidades, empresas e governo, cabe destacar os parques tecnológicos, que podem ser apoiados pela Linha BNDES de Apoio à Inovação”, destaca o diretor.

Na parceria universidade-empresa, Ferraz lembra o papel do Fundo Tecnológico – BNDES Funtec, um instrumento de colaboração financeira não reembolsável, financiado por uma parcela do lucro do Banco. O Fundo é destinado a Instituições Tecnológicas ou Instituições de Apoio, e financia projetos de pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e inovação em parceria com empresas. “Ele pode ser bastante útil na construção de clusters inovativos de classe internacional”, conta.

Ferraz observa que, para termos uma universidade empreendedora é preciso olhar as necessidades de mercado, tanto a oferta quando a demanda. Pelo lado da oferta, diz ele, precisamos avançar mais na capacitação de pessoas, “principalmente em campos de conhecimento aplicado, mas sem nunca desconsiderar a pesquisa básica”, e nas estruturas laboratoriais, inclusive namelhor distribuição pelo território brasileiro.

Do lado da demanda, por sua vez, ele ressalta que precisamos aprofundar a interação com a indústria e os serviços, e incentivar as áreas com maior dinamismo do ponto de vista econômico a investirem mais em inovação. “Para isso, é necessário que a inovação seja prioridade nas políticas públicas e principalmente privadas, já que o protagonista da inovação é a empresa”, ressalta.

Daniela Klebis – Jornal da Ciência – edição impressa

 

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