Uma rede para reproduzir experimentos

010 Boaspraticas 03Um grupo de pesquisadores do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vai organizar nos próximos meses uma rede de laboratórios incumbida de repetir até 100 experimentos em ciências biomédicas publicados em artigos científicos brasileiros – o objetivo é verificar o quanto é possível reproduzir os resultados que foram divulgados. Batizado de Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade, o projeto recebeu financiamento do Instituto Serrapilheira. O primeiro passo será selecionar cinco métodos bastante difundidos para refazer experimentos – entre os candidatos, há técnicas como o Western Blot, de detecção de proteínas, Elisa, de detecção de anticorpos, ou RT-PCR, de quantificação de RNA, além de modelos baseados em culturas de células e roedores. “Queremos escolher métodos consagrados

e fáceis de fazer, pois a etapa seguinte será convidar centros capazes de realizá-los em vários lugares do país interessados em participar da rede”, afirma o médico Olavo Amaral, coordenador do projeto. Ele espera credenciar os laboratórios participantes até o final do ano.

A escolha dos experimentos a serem replicados deverá ser feita de forma aleatória entre artigos científicos brasileiros que os utilizaram. “A intenção é selecionar pelo menos 20 experimentos relacionados a cada método e saber em que proporção dessa amostra os resultados se confirmam”, explica Amaral. Para o primeiro ano de trabalho, durante o qual serão montados os protocolos para replicar as pesquisas, o Instituto Serrapilheira vai investir R$ 145 mil. Encerrada essa etapa, o grupo da UFRJ espera obter uma nova rodada de financiamento para a realização dos testes – a estimativa é gastar cerca de R$ 1 milhão na empreitada. “O valor é pequeno diante do volume de recursos investidos por agências de fomento à pesquisa no país. É importante aperfeiçoar os mecanismos de controle de qualidade dos resultados obtidos.” Cada experimento selecionado deverá ser refeito em pelo menos três laboratórios.

Amaral observa que nem sempre a revisão por pares dos artigos científicos é suficiente para detectar falhas na metodologia ou na execução dos experimentos. “Mas ninguém sabe qual é a extensão desse problema”, afirma. “Alguns levantamentos feitos em outros países avaliando áreas específicas de pesquisa conseguiram confirmar menos da metade dos resultados anunciados em artigos.”