Interface ciência-público em tempos de correção da literatura científica: Questões éticas contemporâneas

A atenção internacional a questões éticas envolvidas na comunicação científica é cada vez mais evidente e vem aumentando nas últimas décadas. Essa atenção inclui a do público, que vem tendo maior acesso a notícias sobre ciência e sobre o modus operandi de seu sistema de publicações. Nesse panorama amplo de notícias incluem-se casos de má conduta em pesquisa e outras infrações éticas no âmbito da produção científica. Embora haja discrepância no percentual de registros de pesquisa que envolvem má conduta – fabricação, falsificação e plágio, na definição mais formal do termo – esse número não ultrapassaria 2%. Entretanto, para além do fator quantitativo, o potencial impacto científico e social desses casos é uma das maiores preocupações de pesquisadores, educadores e gestores.

Na mídia, a repercussão geralmente é maior para casos de má conduta em pesquisas com grande potencial de aplicação em áreas de imediato interesse público. Nas ciências biomédicas, por exemplo, um dos casos com ampla publicidade internacional envolveu o cientista japonês Yoshiko Sasai, que era considerado um dos mais respeitados no campo da biologia do desenvolvimento. Sasai foi um dos responsáveis pela fundação do Center for Developmental Biology (CDB) do prestigioso instituto RIKEN, no Japão. Juntamente com colaboradores, incluindo a jovem cientista Haruko Obokata, Sasai vinha trabalhando em um método supostamente promissor de conversão de células somáticas em células pluripotentes, definido como Stimuli-Triggered Acquisition of Pluripotency (STAP, aquisição de pluripotência induzida por estímulo). Os resultados do estudo1foram publicados no periódico Nature em 2014. Obokata era a primeira autora dos dois artigos, cujos resultados teriam aplicação em várias áreas, incluindo a medicina regenerativa.

Para uma representação mais objetiva das expectativas em torno dessa contribuição, citamos uma matéria2 publicada em 2016 na revista americana The New Yorker. Na matéria2, Dana Goodyear relata que “até 2020, de acordo com a empresa de consultoria Frost & Sullivan, as terapias com células-tronco serão uma indústria global de 40 bilhões de dólares. O STAP parecia ser uma ponte para os objetivos de longo prazo do desenvolvimento de medicamentos paciente-específicos, modelagem avançada de doenças e, em última instância, a capacidade de regenerar partes do corpo sem o risco de rejeição do sistema imunológico”. A autora acrescenta que “Sasai comparou o STAP à reorganização do cosmos de Copérnico. Uma fortuna financeira, talvez até um prêmio Nobel, pode aguardar seus descobridores”. As publicações do Nature em 2014, tiveram imediata repercussão na mídia e na comunidade científica.

Pesquisadores da área manifestaram dificuldade para reproduzir os resultados descritos nos artigos, e, posteriormente, uma investigação indicou que havia sérias distorções nos dados da pesquisa. Os artigos publicados em janeiro de 2014 foram retratados em julho do mesmo ano. Sob o título “STAP retracted”3, o Editorial discute as retratações e relata que “Subjacente a essas questões, muitas vezes, está o desleixo, seja no manuseio dos dados, na sua análise ou na manutenção inadequada das anotações de laboratório… Uma manifestação desses problemas tem sido um crescimento no número de correções emitidas pelos periódicos nos últimos anos”.

As várias repercussões associadas a essas retratações na academia incluem o desmantelamento do próprio CDB e releituras sobre o ambiente de pesquisa nas instituições japonesas, que parecem ter se aprofundado com o suicídio de Sasai, em agosto de 2014.

Obituários publicados em periódicos científicos de grande visibilidade apresentam claramente a promissora trajetória científica de Sasai. Um deles4, de autoria do professor Arturo Alvarez-Buylla, da University of California at San Francisco, comenta: “Dado o orgulho que Yoshiki sentia pelo trabalho que fazia em seu país, seu prazer e devoção à boa ciência, a sua família e à vida, fiquei chocado ao descobrir que em 5 de agosto meu admirado colega e querido amigo havia tirado a própria vida. Claramente, seu estado mental sofreu um golpe muito duro em virtude da massiva cobertura midiática e de meses de alegações em torno dos dois artigos do Nature publicados em janeiro, do laboratório de Haruko Obokata”. Sasai teria registrado, pouco antes do suicídio, que estava cansado da “agressão injusta nos meios de comunicação de massa e a responsabilidade que sentia em relação ao RIKEN e seu laboratório”5.

Essa pequena exposição do referido cenário não oferece elementos suficientes para uma consideração da real dimensão do impacto desse caso na própria comunidade científica, na mídia e na percepção pública sobre as razões que podem motivar outros casos. Entretanto, esse pequeno retrato sugere a importância do papel do jornalismo científico em casos como esse – que abrem espaço para promover uma compreensão mais ampla do público sobre desafios éticos e sociais que o sistema de pesquisa hoje enfrenta. Dentre os fatores associados a esses desafios está a confiança pública na ciência – motivo de forte preocupação de pesquisadores e gestores.

No âmbito das publicações, esforços crescentes que, em alguma medida, respondem a tais desafios vêm sendo empregados. Esses esforços objetivam intensificar os mecanismos de autorregulação da ciência e “correção” do registro de pesquisa no âmbito da comunicação científica. Essa correção nem sempre é motivada por casos de má conduta em pesquisa, podendo ocorrer pela identificação de um erro honesto que pode invalidar resultados publicados. Essas iniciativas editoriais multiplicam as estratégias e as percepções sobre a necessidade de aumentar a confiabilidade do registro da pesquisa.

Partilhamos a ideia de que aumentar essa confiabilidade – dos pares e do público – é uma das demandas que a comunidade científica vem procurando responder de forma proativa e objetiva. Consistente com essa ideia, os mecanismos de correção da literatura científica vêm sendo ampliados.

Diferente do que acontecia há cerca de duas décadas, quando a correção formal de um artigo científico era rara, hoje esse recurso vem se integrando à cultura editorial de publicações. Nesse contexto, a influência desse processo de correção no fluxo e padrão de notícias sobre ciência merece especial atenção. Nos últimos anos, com um público com muito mais acesso – e, talvez, mais atento – a essas notícias, o papel do jornalismo científico na sociedade também ganha desafios adicionais. No artigo “How Journalists Can Help Hold Scientists Accountable”6, publicado em 2016 na revista Pacific Standard, o jornalista Michael Schulson discute alguns desses papéis, mas também faz algumas provocações. Em uma delas, Schulson descreve que “Normalmente os jornalistas não dizem que os ‘fatos mudam’; é trabalho do jornalista definir e divulgar os fatos”. O autor acrescenta que “Mesmo nas publicações mais respeitadas, os jornalistas científicos tendem a se posicionar como tradutores, transformando a linguagem técnica dos artigos científicos em resumos acessíveis ao público ”. Na visão de Schulson, “Deduz-se que o texto-fonte que estão traduzindo – a pesquisa científica original – chegue a eles como um fato irrepreensível”.

Essa perspectiva de Schulson pode ser considerada exagerada por alguns jornalistas científicos, mas parece ir ao encontro de questões já postas por Boyce Rensberger em um ensaio7 publicado no Nature. Rensberger dirigiu o Knight Science Journalism Fellowship Programme at the Massachusetts Institute of Technology (MIT), entre 1998-2008. Segundo o autor, “Para que os jornalistas científicos possam recuperar a relevância de seu trabalho para a sociedade, além de dominar as novas mídias, devem também aprender ciência suficiente para analisar e interpretar as descobertas – incluindo as motivações dos financiadores”.

Recentemente, Kathleen Hall Jamielson, diretora do Annenberg Public Policy Center da University of Pensilvannia, ao discutir a análise de narrativas que considera equivocadas na mídia em um artigo8publicado no PNAS, aponta a necessidade de mudança na forma como o processo de autocorreção da ciência vem sendo comunicado ao público. Uma das ideias que a autora fomenta é a de que vem ocorrendo um desequilíbrio entre a divulgação de violações de integridade científica e as tentativas de evitá-las. A autora destaca o papel do jornalista para “aumentar a compreensão da sociedade sobre a ciência e minimizar a vulnerabilidade pública a distorções na ciência”9. No âmbito da correção da literatura, Hall Jamielson reforça a perspectiva de Fanelli e de Marcus e Oransky. Nessa perspectiva, o aumento das retratações, por exemplo, seria um bom sinal (em termos de resposta ao problema), indicando que a autorregulação da ciência estaria funcionando.

Embora haja outros fatores que aprofundam a nossa compreensão sobre as retratações, uma questão que emerge nesse panorama é como esse processo de correção da literatura deve se articular com a dinâmica de divulgação de notícias sobre ciência. Para a interface ciência-público, a exposição a essa crescente atividade de correção abre um espaço singular que pode fortalecer a compreensão pública sobre a ciência, seus mecanismos de autorregulação e responsabilização. Como explorar esse espaço, fortemente articulado com pressupostos da integridade científica, é um dos desafios postos a todos os que estão atuando nessa interface – incluindo jornalistas científicos. Como já indicado, “a sociedade precisa ver a ciência escrutinada, bem como regurgitada, para que nela possa depositar sua confiança, e os jornalistas são parte importante desse processo”10.

Fonte:  SciELO