Especialista recomenda revisão de normas sobre exposição a mercúrio

A exposição ao metal tóxico em níveis elevados pode provocar danos irreversíveis à visão, com prejuízos à retina

exposicao ao mercurio

Por Viviane Monteiro | 20 de agosto de 2014

As normas internacionais relacionadas à exposição humana ao vapor do mercúrio em ambientes de trabalho estão ultrapassadas e precisam ser revisadas para conter casos de intoxicação de trabalhadores ao metal tóxico.

 

A recomendação é da pesquisadora Dora Ventura, do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em palestra proferida nesta terça-feira, 19, no 2º Encontro Regional de Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC), na unidade do Makenzie, em Higienópolis, São Paulo. 

“O sujeito que está exposto cronicamente (ao mercúrio) fica numa situação em que as normas não são seguras. São ditas seguras, mas não são”, disse Dora que discorreu sobre o tema: Impactos da exposição ao mercúrio na visão humana.

Com base nos parâmetros internacionais, a legislação brasileira estabelece o limite de 35 microgramas por gramas de mercúrio (35 μg de Hg/g) na urina do trabalhador exposto ao metal tóxico no ambiente de trabalho.

Embora toda população esteja potencialmente exposta ao mercúrio encontrado no meio ambiente, o risco maior ocorre no ambiente de trabalho nas indústrias de cloro-álcali; aparelhos de medição de uso doméstico, clínico e industrial como termômetros (temperatura), esfignomanômetros (pressão sangüínea), barômetros (pressão); lâmpadas fluorescentes; interruptores elétricos e eletrônicos (interruptores de correntes); e instrumentos de controle industrial (termostatos e pressostatos). 

Perda de visão 

A exposição ao metal tóxico em níveis elevados pode provocar danos irreversíveis à visão prejudicando a retina e o córtex visual, além de outros alvos do organismo, segundo informações de Dora, que fundou o Laboratório da Visão da USP, em 1990, dedicado à pesquisa aplicada em psicofísica e eletrofisiologia visual clínica para o estudo de doenças neurodegenerativas do sistema visual.

Durante 10 anos, aproximadamente, Dora pesquisou, com outros pesquisadores, o impacto do mercúrio em um grupo de 120 trabalhadores aposentados por invalidez em razão da intoxicação mercurial de duas indústrias de lâmpadas fluorescentes, em São Paulo. Todos os trabalhadores foram submetidos a testes de visão e grande parte deles teve perdas visuais de forma irreversível. Ou seja, tiveram prejuízos na visão de cores e de contrastes, assim como o campo visual. 

Além da exposição humana ao mercúrio, os pesquisadores estudam outras doenças que afetam o sistema visual, como diabetes, doenças neurológicas e outras. 

“Na indústria de lâmpadas florescentes que a gente estudou o descaso com a exposição ao mercúrio era total. Depois que alguns indivíduos ficaram muito intoxicados e começaram a se aposentar por invalidez e o episódio começou a virar um escândalo, as empresas começaram a ter mais cuidado e buscar proteção”, disse Dora, preferindo não citar o nome da empresa até porque a intenção do grupo é gerar dados científicos e não denunciar empresas. 

No geral, segundo entende a pesquisadora, os níveis de exposição ao mercúrio estabelecidos nas normas brasileiras e internacionais não são seguros. No caso do Brasil, disse, existem vários trabalhadores em situação de risco em empresas de lâmpadas florescentes, além de outros segmentos nos quais o mercúrio é utilizado. 

Para a pesquisadora, os métodos de avaliação utilizados em sua pesquisa são mais sensíveis do que aqueles utilizados na elaboração das legislações sobre a exposição do mercúrio, em 1994. 

“Nossos testes são muitos sensíveis e modernos, desenvolvidos com técnicas computacionais bem avançadas. São instrumentos melhores do que os usados na época em que as normas foram definidas,” comparou. 

Riscos em outras áreas 

Outro risco da exposição ao mercúrio ocorre nos consultórios odontológicos e na extração do ouro, o que acarreta prejuízos consideráveis ao meio ambiente. 

No caso de consultórios odontológicos, a amálgama feita com mercúrio para fechar uma cavidade dentária ainda é o melhor método considerado pelos dentistas, apesar de riscos de intoxicação. A máscara utilizada pelos profissionais, conforme Dora, é insuficiente para impedir a intoxicação que acontece pela inalação do vapor do metal tóxico. “O pior momento é quando se usa o motorzinho para retirar a obturação porque a temperatura aquece a liga e libera o vapor de mercúrio.” 

Foto: Dago Nogueira 

Fonte: Jornal da Ciência