Cientistas desenvolvem kits didáticos para estimular educação científica

29 de agosto de 2014 | em Jornal da Ciência

O Ministério da Educação (MEC) deve começar a distribuir, a partir de 2015, kits didáticos às escolas públicas do ensino médio  na tentativa de estimular a educação científica em sala de aula. Inicialmente, os kits atendem às áreas de biologia, física, matemática e química.

Os aparelhos, como microscópios disponíveis em kit de Biologia para estudar organismos vivos, foram desenvolvidos por uma equipe de cientistas das áreas de física, química, biologia e matemática da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que criaram um projeto piloto para produção de kits didáticos. Todos os kits possuem patentes e propriedade intelectual para evitar que sejam copiados por outros países.

Um dos responsáveis pelo projeto, o físico e Acadêmico Vanderlei Bagnato, professor titular do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da USP, disse que foi fechado um acordo com o MEC para o fornecimento de pelo menos 1 milhão de kits que devem ser distribuídos em 22 mil escolas do ensino médio, pelo menos. A intenção é que os kits sejam utilizados em experimentos científicos, em sala de aula, ou laboratórios que devem ser montados por cada instituição.

O setor jurídico do MEC confirma o acordo. Segundo fontes da área jurídica do Ministério, a negociação encontra-se em fase de tramitação na USP desde julho último. A previsão é de que o material comece a ser distribuído a partir do próximo ano para atender o ano letivo de 2015, na tentativa de melhorar o ensino de ciência na educação básica. Preferiram, porém, não falar sobre o volume encomendado de kits.

Na avaliação de Bagnato, os kits são "autossuficientes" para o aprendizado dos alunos. Isso porque dão informações didáticas sobre as leis básicas de vários temas e liberdade para o aluno inovar e criar ideias baseados nos conceitos estipulados no material.

Os cientistas começam também a desenvolver kits das áreas de geologia e geofísica para o ensino fundamental, ainda sem acordo fechado com o MEC. No caso da geofísica, por exemplo, a ideia é levar conhecimento prático sobre o planeta terra mostrando como funcionam as zonas climáticas, por exemplo.

Equipe de cientistas

Além do físico Vanderlei Bagnato do IFSC da USP, a equipe é formada pelo físico Moyses Nussenzveig, professor aposentado do Instituto de Física da UFRJ, e o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, do Instituto de Física da Unicamp e diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Da USP, os cientistas são Beatriz Barbuy, do Instituto de Astronomia, as biólogas Mayana Zatz e Eliana Dessen; o químico Henrique Toma; e o matemático Eduardo Colli.

A apresentação dos kits foi realizada por Bagnato em 19 de agosto, durante o II Encontro Regional de Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC) na Universidade Presbiteriana Mackenzie, unidade de Higienópolis, em São Paulo (SP).

A iniciativa é considerada positiva por acadêmicos e cientistas. Na ocasião, o vice-presidente da ABC, Hernan Chaimovich, presente ao evento, defendeu a necessidade de escalonar a distribuição do projeto a fim de beneficiar todas as crianças brasileiras, superior a 22 milhões.

Por sua vez, Bagnato informou ao Jornal da Ciência que no acordo fechado com o MEC foi considerado todo o público do ensino médio de escolas públicas. Ou seja, todas escolas públicas devem receber os kits.

Bagnato acrescentou que a intenção é escalonar a produção de kits para atender a todas as escolas brasileiras do ensino médio e fundamental, fechando acordos também com escolas privadas. O custo de cada kit gira em torno de 100 reais.

Já o professor do Instituto de Química da USP, Guilherme Marson, que também participou do evento da ABC, disse que a apresentação dos kits em sala de aula aumenta o "poder de difusão" do conhecimento científico perante aos alunos. Defendeu, porém, a necessidade de formar os professores para que os frutos sejam colhidos em longo prazo. "O esforço dos kits aumenta o poder de difusão, mas é preciso formar os professores."

Para viabilizar a produção dos equipamentos, a equipe de cientistas criou um consórcio, inicialmente, com mais de 20 empresas especializadas,  sob o guarda-chuva da Educar Inovação Tecnológica LTDA, alocada em São Carlos, interior de São Paulo.

Para atender às encomendas públicas, no caso do MEC, Bagnato adiantou que o órgão, porém, terá de fazer licitação.

Treinamento de professores

Conforme Bagnato, a preparação dos professores é um requisito para o uso dos kits em sala de aula. Nesse caso, informou, será montado um programa de educação à distância para o treinamento de professores. Inicialmente, serão treinados 22 mil docentes. "É um perigo mandar kits para escolas se os professores não sabem como usá-los", avaliou  Bagnato.

O treinamento dos professores, disse Bagnato, recebeu o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pelo Pibid (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência). Esse programa foi criado pela Capes para o aperfeiçoamento e a valorização da formação de professores para educação básica. Os experimentos científicos também serão demonstrados  em programas da TV Escola.

Teste nas escolas

Os kits passaram por testes em algumas escolas do País. Segundo Bagnato, foram entregues 6 mil kits a várias escolas do País, iniciativa que gerou 1,8 mil relatórios com sugestão de alunos, professores e etc. "Baseada nessas informações, a maioria dos kits já foi adequada."

Conforme o professor titular do IFSC, o desenvolvimento dos kits partiu da ideia de ressuscitar o chamado projeto Cientistas do Amanhã, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Fundeb) que durou décadas. "Eram kits de ciência vendidos em bancas de jornal como gibis", recorda. 

Foto: a esquerda para a direita: Eduardo Colli, Vanderlei Bagnato, Moyses Nussenzveig e Henrique Toma (em cima);
Eliana Dessen, Mayana Zatz e Beatriz Barbuy (em baixo)

Fonte: Jornal da Ciência