Pela 1ª vez, Fapesp torna públicas fraudes científicas

Por Fábio de Castro | 7 de outubro de 2014

Cinco pesquisadores que receberam financiamento são acusados de má conduta e tiveram os nomes divulgados no site da fundação

Cinco casos de fraude científica – incluindo plágio e fabricação de dados – foram divulgados nesta terça pela Fapesp, fundação pública que financia a pesquisa científica no Estado de São Paulo. Desde o lançamento do Código de Boas Práticas Científicas, em 2011, é a primeira vez que a instituição expõe conclusões de investigações. A divulgação das fraudes deve continuar, conforme forem apuradas. A medida é inédita no Brasil.


Os casos publicados envolvem os pesquisadores Andreimar Soares, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP), Cláudio Airoldi, do Instituto de Química (Unicamp), Flávio Vilela, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (USP), Javier Amadeo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (USP), e Antonio José Balloni, do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer. A Fapesp estabelece que o sumário dos casos ficarão expostos publicamente de três meses a cinco anos, dependendo da gravidade da violação de boas práticas científicas.

Os pesquisadores acusados foram procurados pela reportagem. Javier Amadeo, atualmente professor da Unifesp, disse que não houve má conduta científica, mas um erro de citação (leia mais abaixo). Cláudio Airoldi não quis comentar, Antonio José Balloni não havia respondido e-mail até as 21 horas e os outros não foram localizados.

Para Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a iniciativa da Fapesp de divulgar os casos investigados é correta. “Uma vez que foi dado direito de ampla defesa aos acusados, acho que a Fapesp tem a obrigação social de divulgar esses casos, já que ela financia a pesquisa com recursos públicos”, disse. Segundo ela, além de contribuir para coibir as fraudes, a divulgação das irregularidades é uma maneira de mostrar ao contribuinte que o uso dos recursos públicos está sendo fiscalizado. “É preciso defender a integridade científica acima de tudo.”

O código da Fapesp determina a investigação rigorosa de denúncias de fraude e prevê que seja feita sob sigilo, para preservar a reputação dos suspeitos. Mas, quando a má conduta é comprovada, para coibir esse tipo de prática, a Fapesp expõe publicamente as conclusões do processo, divulgando os nomes, instituição dos pesquisadores, a descrição do trâmite e a punição imposta.

De acordo com o pró-reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), José Eduardo Krieger, a instituição apoia a iniciativa e também tem mecanismos para evitar a fraude científica. “Mas a notoriedade transitória dos raros casos de fraude científica não pode ser confundida com o sucesso e os resultados do ensino da USP.”

Mãos erradas. Sérgio Pena, um dos autores do guia Rigor e Integridade na Condução da Pesquisa Científica, da Academia Brasileira de Ciências (ABC), afirma que a iniciativa é excelente para a ciência brasileira. “É importante que os recursos para pesquisa não caiam em mãos erradas. A divulgação dos nomes ajudará a coibir as violações de boas práticas”, disse. Ele acredita, no entanto, que as investigações atingirão apenas uma pequena parte das fraudes.

Martha Sorenson, da Câmara Técnica de Ética em Pesquisa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que o procedimento de exposição dos casos é uma forma de proteger a ciência e melhorar a percepção do público em relação a ela.

“A ciência depende da confiança do público. Quando todos começam a achar que as fraudes são comuns, essa confiança é abalada e teremos menos apoio para recursos”, afirma Martha.

OS CINCO CASOS ANALISADOS
Fabricação de dados
Pesquisador denunciado: Andreimar Martins Soares.
Instituição: Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP.
Má conduta: Fabricação de dados e utilização de figuras já publicadas em artigos de outros autores na tese de doutorado de Carolina Dalaqua Sant’Anna, sob sua orientação.
Conclusão: Má conduta científica grave - se não intencional, ao menos por negligência grave.
Punição: Financiamentos do pesquisador serão cancelados. Ele não poderá pedir auxílios por três anos. Sumário ficará exposto por três anos.

Imagens fraudadas

Pesquisador denunciado: Cláudio Airoldi.
Instituição: Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Má conduta: Utilizar imagens fraudadas em 11 artigos de que foi coautor.
Conclusão: Agiu com negligência, segundo a fundação, ao aceitar a coautoria das publicações analisadas.
Punição: A análise de uma solicitação de auxílio à pesquisa foi interrompida e será negada pela Fapesp. Pesquisador ficará impedido de pedir auxílios por seis meses à agência. Sumário permanecerá exposto por seis meses.

Falsa autoria

Pesquisador denunciado:Flávio Garcia Vilela.
Instituição: Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.
Má conduta: Pesquisador se apresentou, em seu currículo Lattes do CNPq, como coautor de artigos dos quais, na realidade, não foi coautor.
Conclusão: Falsa coautoria intencional.
Punição: Cancelamento de bolsa e devolução dos valores pagos. Fica impedido de pedir auxílios e bolsas à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por três anos. Sumário permanecerá exposto por três anos.

Plágio

Pesquisador denunciado: Javier Amadeo.
Instituição: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)
Má conduta: Em projeto de solicitação de bolsa de pós-doutorado na USP, pesquisador reproduziu, sem aspas, cerca de 30 linhas do livro As Revoluções do Poder, de Eunice Ostrensky.
Conclusão: Plágio.
Punição: Bolsa cancelada e terá de devolver os valores pagos pela Fapesp. Será impedido de pedir bolsas por três anos. Sumário ficará exposto pelo mesmo período.

Plágio

Pesquisador denunciado: Antonio José Balloni.
Instituição: Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, localizado na cidade de Campinas.
Má conduta: Plágio em projeto de pesquisa encaminhado para solicitação de auxílio financeiro à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp).
Conclusão: Plágio.
Punição: Pesquisador fica impedido de solicitar auxílios e bolsas à Fapesp por um ano. Sumário ficará exposto pelo mesmo período.

Fonte: Estadão