Brasil valoriza ética e integridade na atividade científica e está entre os líderes na discussão do tema

País sedia a 4th World Conference on Research Integrity, que reunirá delegações de 57 países no Rio de Janeiro

Suzana Linkauskas | 29 de maio de 2015

A relevância do papel da ética e da integridade nos sistemas de ciência e tecnologia em diferentes países estará em debate na 4th World Conference on Research Integrity, 4WCRI (http://www.wcri2015.org/), que acontece no Rio de Janeiro, entre 31 de maio e 3 de junho. A quarta edição do evento, que, desde 2007, já foi realizado em Portugal, Cingapura e Canadá, reunirá trabalhos inéditos, com a participação de pesquisadores de mais de 50 países.

O Brasil terá a maior delegação, que, até o momento, conta com mais de 250 inscritos, seguido dos EUA, com 61 participantes, Canadá, com 30, Reino Unido e Noruega, com 27 cada.  O evento também contará com participação expressiva de delegações da Holanda, da Austrália, do Japão, da China e da Arábia Saudita. Uma das organizadoras do evento, Sonia Vasconcelos, professora do Programa de Educação, Gestão e Difusão em Biociências, Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que os temas serão debatidos por representantes de todos os continentes e das principais instituições de fomento à pesquisa de países que respondem por boa parte da produção científica mundial.

A preocupação comum entre os participantes estará focada em procedimentos e ações na área de integridade em pesquisa que possam produzir impactos positivos nos sistemas de pesquisa que enfrentam cada vez maiores desafios éticos no campo da produção científica.

A cerimônia de abertura terá a participação dos presidentes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, e da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis, além de representantes da Capes, do CNPq, do MCTI e do Conselho Nacional de Ética e Pesquisa (Conep).

No domingo, dia 31, haverá uma sessão pré-conferência, com a realização de três workshops, sendo um deles exclusivamente direcionado a editores, revisores e membros de conselhos e bancas editoriais. O COPE (Committee on Publication Ethics) Workshop for editors será presidido por Charlotte Haug, vice-presidente, com a participação de membros do COPE e os palestrantes Behrooz Astaneh, Shiraz University of Medical Sciences (Irã) e Muhammed Irfan, do Peshawar Medical College (Paquistão). Neste dia, também acontecem os workshops “Education Track – Publication Ethics & Responsible Research Communication” e “US Office of Research Integrity Training Session – Handling Research Misconduct Allegations”.

Ciência não pode ser penalizada com a falta de ética

Para a pesquisadora americana Melissa S. Anderson, da University of Minnesota (EUA), co-chair do evento, as conferências mundiais refletem a expansão da atenção global para as questões referentes à integridade da pesquisa. De acordo com a pesquisadora, em todo o mundo há uma preocupação em desenvolver políticas, disseminar treinamentos colocar em prática ações de sensibilização para a importância de se manter a integridade em processos e resultados das pesquisas.

“A investigação nas fronteiras do conhecimento está sempre sujeita a erros humanos e equívocos. Lidar com esses fatores sem afetar os resultados das pesquisas já é suficientemente difícil. E é muito pior quando alguém falsifica ou produz dados intencionalmente, apenas para estar à frente em termos de competitividade”, enfatiza Melissa. Ela observa, porém, que “há agora uma maior consciência de que a ciência não pode pagar os custos desse tipo de má conduta” e que a Conferência Mundial reunirá delegações de muitos países que vão relatar progressos sobre como os sistemas e as instituições de pesquisa vêm lidando com lapsos de integridade. “Na conferência no Rio, o foco será em ações que possam trazer melhorias aos sistemas de pesquisa no âmbito da integridade científica”, detalha Melissa.

Brasil dá exemplo e lidera na discussão mundial

Nick Steneck, diretor do Programa de Ética e Integridade na Pesquisa da University of Michigan, nos Estados Unidos, que presidirá a plenária sobre o papel dos financiadores para conduzir mudanças no sistema de pesquisa, afirma que a presença do Brasil no cenário internacional da integridade científica é evidente. Para Steneck, um dos mais respeitados acadêmicos da área, o país vem alcançando um papel de liderança nessa discussão.

“O Brasil vem assumindo um papel de liderança no sentido de motivar governos ao redor do mundo a levarem a integridade em pesquisa a sério. Isso fica evidente na proposta bem-sucedida para sediar a 4ª Conferência Mundial, reunindo diversos Conselhos de Pesquisa e trabalhos recentes sobre o tema, originários de diversos países. O segundo motivo que leva o Brasil a ter esse destaque é a demonstração de seu compromisso em promover a integridade em pesquisa através de um evento nacional, o Brazilian Meeting on Resarch Integrity, Science and Publication Ethics (BRISPE), novas políticas para financiamento e outros esforços que podem estimular a integridade”.

Na sua avaliação sobre o cenário brasileiro nesse campo específico, Steneck considera que “o Brasil está liderando pelo exemplo”. Ele alerta que “paciência” é fator importante nesses esforços. “Nenhum país pode mudar seu ambiente de pesquisa ou melhorar questões relacionadas à integridade científica em semanas ou meses. Mas, ao liderar pelo empenho e pelo exemplo, o Brasil deve emergir como um país cujo ambiente de pesquisa seja amplamente conhecido e também amplamente respeitado”, diz Steneck.

Susan Zimmerman, presidente do Secretariat for Responsible Conduct of Research do Canadá, principal órgão para a integridade em pesquisa do Canadá, que tem ação direta nas Tri-Agencies, principais agências de fomento daquele país, é palestrante do evento. Ela concorda que o Brasil tem sido um participante ativo no cenário da integridade em pesquisa, tanto internamente como no âmbito internacional. Ela explica que, como o Canadá, o Brasil tem trabalhado ativamente para desenvolver e implementar padrões éticos e normas para a realização de pesquisas.

O Secretariat for Responsible Conduct of Research estabeleceu pela primeira vez uma cooperação direta com o Brasil e suas atividades de integridade em 2012, durante o II BRISPE. A diretora diz que a instituição, após 2012, continuou a manter essa relação cooperativa com colegas brasileiros, sobretudo nos conselhos consultivos e comitês de planejamento para a 3ª e a 4ª Conferências Mundiais.

“Ao sediar a 4th World Conference on Research Integrity, o Brasil demonstra sua liderança na área. O Canadá continua interessado no desenvolvimento do trabalho que o Brasil está promovendo em nível nacional. O compartilhamento de políticas entre os nossos países tem proporcionado uma visão sobre as diferenças e as semelhanças em relação a questões legais, por exemplo. Estamos ansiosos para continuar essa parceria na promoção de um ambiente positivo, onde a pesquisa seja conduzida de forma responsável”, completa.

A 4WCRI conta com o apoio, além da Secretariat do Canadá, do International Council of Science (ICSU), do Wellcome Trust, do Fogarty International Center/National Institutes of Health (NIH), Research Foundation – Flanders (FWO), e do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), considerada a maior associação científica na área tecnológica, que inclui cerca de 429.000 membros de vários países.

Tem o apoio também da American Association for the Advancement of Science (AAAS), da European Molecular Association (EMBO), organização internacional que reúne mais de 1.700 pesquisadores para promover a excelência nas ciências da vida, da editora Elsevier e da Japan Society for the Promotion of Science (JSPS), dentre vários outros.

Fonte: Jornal da Ciência